Uma Organização Esotérica na Índia - Artigo II

Sexta, 20 Setembro 2013 11:50 | Escrito por 

Afirmamos em nosso último artigo que é vontade dos dirigentes da Organização, que sua existência seja amplamente conhecida. Uma das razões para isso é a seguinte: sabedores que, ao findar o ano Nala, ou seja, daqui a vinte um meses,1 um pequeno ciclo chega ao término, e que o próximo durará vinte e quatro anos, há grande probabilidade de que durante esse período aumente o número de pessoas que buscarão orientação para evolução espiritual, tal como a que é oferecida pelos Instrutores aos membros da Organização. Considerando isso, é dever daqueles que integram esta Organização dar conhecimento público às verdades que devem estar accessíveis para pessoas que almejam tornarem-se membros da mesma. Podemos acrescentar que, atualmente, não há expectativa de que, aqueles totalmente ortodoxos em sua maneira de pensar e de viver na sociedade hindu, busquem admissão e treinamento como membros da Organização.

Acredita-se, contudo, que os hindus que receberam o benefício de uma educação ocidental estarão mais dispostos a aceitar tal treinamento, desde que tenham grande reverência pela Brahma Vidya (Ciência do Absoluto), como ocorre em alguns casos. Em outras palavras, entendemos que estes últimos acatarão e apreciarão prontamente as grandes verdades que fundamentam os ensinamentos e o treinamento obtido na Organização, enquanto que aqueles, ainda cheios de preconceitos de castas e seitas, encontrarão intransponíveis barreiras para aceitar tais verdades.

Como foi afirmado nas últimas palavras do nosso artigo anterior, a admissão na Organização não é obstaculizada em razão de nacionalidade, raça, casta, credo ou sexo. Sua única meta e objetivo são, como sempre tem sido, treinar e manter um corpo de Yogues dedicados ao bem-estar de toda a humanidade, e de toda a criação no mundo. Isso é mencionado enfaticamente no Anushtana Chandrika2, um livro que, em nossa humilde opinião, é de profundo interesse para todo verdadeiro estudante de Yoga neste país (Índia), especialmente para os membros hindus da Escola Esotérica, da Sociedade Teosófica. Estamos certos de que a publicação desse livro será de grande benefício para os membros da Sociedade Teosófica que, por já prestarem um verdadeiro serviço à causa da Teosofia, reconhecerão que ele transmite uma mensagem inestimável ao mundo inteiro.

Em primeiro lugar, o livro proporcionará espantosa certeza sobre a existência da Grande Fraternidade Branca, acrescentando-se que dois de seus membros fundaram a Sociedade Teosófica3 e a tem guiado durante todos estes anos, apesar dos inúmeros obstáculos encontrados no caminho para o seu progresso. Em segundo lugar, o livro deixará absolutamente claro que, ao fundar a Escola Esotérica, H. P. Blavatsky, a Dirigente Externa, atuava somente como instrumento nas mãos dos Fundadores da Sociedade Teosófica, e que o estabelecimento da mesma teve por objetivo proporcionar treinamento em Yoga, nas linhas adequadas às condições atuais4.  
A Escola Esotérica foi indispensável para efetivar a existência da Sociedade Teosófica no mundo. Não cabe nenhuma dúvida de que foi através dela que fluiu energia vitalizante, por parte de seus fundadores, para a Sociedade Teosófica em geral, e, se assim não fosse, a Sociedade Teosófica estaria morta há muito tempo.

Voltando agora ao livro Anushtana Chandrika, pode-se dizer que este texto organiza-se em quatro partes. A primeira trata de assuntos gerais e do sistema de disciplina prescrito para os estudantes conhecidos como Dasas. A segunda trata da disciplina para os Tirthas. Somente é possível serem obtidas, em forma escrita, essas duas partes, até o presente momento. A instrução para as duas classes restantes, os Brahmas e os Anandas, só é transmitida oralmente, e as anotações feitas por aqueles que recebem tal instrução, nunca saem de suas mãos. Essas instruções orais, é necessário esclarecer, são de caráter tão interno e tão especializadas que não devem ser comunicadas a ninguém, exceto à pessoa particularmente instruída.

Trataremos, na presente ocasião, de chamar atenção para alguns dos conteúdos das duas partes aludidas, aprofundando o tema em um artigo futuro. Existem quatro Adhyayas ou capítulos; na primeira parte, entre outras matérias, aparecem informações sobre uma Assembléia de Sábios que aconteceu justamente na véspera do início do Kali Yuga, em uma região dos Himalaias, conhecida como Badari Vana. O nome Vana refere-se a um vasto trecho de terra dividido em duas partes: Badari do Sul e Badari do Norte. Foi nessa última localidade que a Assembléia reuniu-se. O lugar preciso chama-se Shambalam ou Shambala. Nele está a principal das cinco moradas ocupadas pelos Sábios. As outras se chamam: Kalapam, Pamalam, Brahmalam, Shankhalam.

Os três Seres mais proeminentes na Assembléia foram Bhagavan Narayana, Naradeva e Yoga Devi. Sobre Eles foi escrito o suficiente no livro Anushtana Chandrika. O verso em que Sri Bhagavan Narayana descreve sua própria natureza diz:

“Sou um fragmento procedente do Parabrahman, radiante com Sua Luz e como um Rishi, vim de Vishnu a Badari Vana, para a proteção deste mundo”.

Em outras palavras, Ele é o representante do Ishwara5, Diretor da condução espiritual da Terra. De acordo com os costumes do país, o representante aplica a Si mesmo, como título de seu ofício, o bem conhecido nome de Ishwara Narayana. Os membros da Escola Esotérica não terão nenhuma dificuldade em identificar esse Grande Ser como Aquele que se nomeia, na literatura Teosófica, “Senhor do Mundo”, ou “Iniciador Único”, e sobre o qual se faz referência na Doutrina Secreta (vol. I pg.207, 1ª edição), como sendo a “Base Raiz” da Hierarquia dos Arhats da neblina de fogo, o sempre-vivo Baniano-humano (árvore da vida).

Naradeva é descrito como representante da humanidade e representado por Arjuna na Guerra do Mahabhárata, a ele são feitas referências no Bhagavad Gita; é amplamente conhecido que um dos muitos nomes que recebeu Arjuna foi o de Naradeva.

Quanto a Yoga Devi, indubitavelmente representa a Luz do Ishwara, sendo também aclamada como a Senhora do Lótus Branco, no livro “O Idílio do Lótus Branco”, de Mabel Collins. De acordo com descrição no Chandrika, ela se encontra sentada em um dos lótus que crescem no Kusumakaram, o sagrado lago cheio de lótus, situado em Badari Vana.

Em um hino, entoado pelos Sábios presentes quando a coroaram como Rainha do Mandalam, faz-se referência aos duzentos poderes ocultos que Ela possui. Essa quantidade parece ser também o número de poderes ocultos exercidos pela Hierarquia, considerada como um corpo, já que, segundo suas próprias palavras, Ela é um poderoso Centro, através do qual a Luz (a Energia) do Ishwara flui e circula na Hierarquia, no tríplice aspecto de Iccha Shakti, Gnana Shakti e Kriya Shakti6.

Passando agora ao que foi disposto na Assembléia, em resposta a certas perguntas feitas por Naradeva, Narayana declarou que, considerando as características da próxima Era, a Era de Kali,7 será necessária uma mudança do Dharma do mundo e que o conhecimento da Yoga Brahma Vidya deverá estar ao alcance de todo ser humano, sem referência alguma a Varnashrama8, sexo e outras diferenciações similares. Para alcançar esse objetivo, o livro diz que Narayana constituiu e estabeleceu uma Associação de Sábios, Yogues e Rishis, chamada Suddha Dharma Mandalam. Essa egrégora indubitavelmente não é outra, senão aquela que a literatura teosófica denomina de “Grande Fraternidade Branca”, ou “Grande Loja Branca”9. Certamente, nenhum nome de maior bem aventurança poderia ter sido escolhido para ela, e nem poderia ser sugerido uma melhor tradução que o nome usado correntemente na literatura teosófica. Os Sábios, Yogues e Rishis, que constituem a Hierarquia, cuidam dos seres e trabalham para todos. Seu trabalho é eminentemente Suddha, puro e genuíno e sua Associação, Suddha Dharma Mandalam, é proeminente. Além disso, ao atribuir-lhe uma cor, qual delas poderia ser mais apropriada do que o branco? Atrevemo-nos a pensar que essa feliz tradução emanou do Mestre que traduziu para Madame Blavastky as Estâncias de Dzyan (Kuthumi), ou do Mestre que lhe ditou Luz do Caminho (Morya), já que ambos manejam habilmente o idioma inglês com maravilhoso poder.

Voltando aos detalhes da sua constituição: o Adhistata, ou Excelso Condutor da Hierarquia, é Narayana; seu Secretário ou Karyadarshi é Naradeva. Além dos dois, há sete Adhikaras Purushas ou Hierarcas, com as seguintes funções: Narada representa o Satyaloka. Sua função é a de Gnanacharya, ou o mais eminente expositor da Yoga Brahma Vidya, ou Ciência Sintética do Absoluto10. O ser conhecido como Vamadeva representa o Tapaloka. Ele explana sobre a Yoga Brahma Vidya relacionada às necessidades dos tempos, de acordo com o grau dos discípulos e dos instrutores. Kashyapa representa o Janaloka e atende à evolução especial daqueles que haverão de chegar a ser instrutores de Yoga Brahma Vidya. Chandabhanu representa o Maharloka e cuida da devida observância da disciplina da Yoga Brahma Vidya. Kaladeva representa o Suvarloka e ocupa-se em remover os obstáculos surgidos no curso do tempo, no caminho dos aspirantes que buscam ser bem sucedidos na Yoga Brahma Vidya. Subrahmanya11 representa o Bhuvarloka e dedica-se a purificar os corpos emocionais daqueles que se ocupam na transmissão do ensinamento da Yoga Brahma Vidya e de seus discípulos. Finalmente Devapi, que representa o Bhuloka, e é quem representa Narayana, o Regente do grupo ou corpo total das pessoas que estão unidas a Ele, mediante a Yoga Brahma Vidya.

Os nomes dos sete Hierarcas contêm a chave da natureza de suas respectivas funções. Tomemos por exemplo Narada. Nara tem por significado dois pares opostos: 1. Sabedoria Divina x Ignorância; 2. Ação de dar x Ação de retirar ou destruir.

Sendo assim os dois significados correspondem, simultaneamente, ao que destrói a ignorância e ao que outorga a sabedoria divina.

Cada um dos sete Hierarcas tem dezoito ajudantes, e há nomes para todos os 126, sendo Maitreya um daqueles que estão no grupo cujo líder é Devapi. Além de todos esses, há 32 Siddhas, como também existem seres que estão sob as ordens do próprio Narayana, ocupados em cuidar, em nome Dele, do bem estar espiritual de todas as pessoas, nas diferentes partes do mundo. O primeiro Sloka, ou Versículo da Saudação, que cada membro da Organização deve dizer diariamente, está composto de tal maneira, que contém a primeira sílaba do nome de cada um destes trinta e dois Siddhas, embora o próprio verso seja uma saudação a Naradeva e Narayana. O verso diz:

NAMASTE NARADEVAYA
NAMO NARAYANAYA CHA
BADARI VANA NATHAYA
YOGINAM PATHAYE NAMAHA

Saudações a Naradeva
e glória ao Senhor Narayana
que nos bosques de Badari Vana
dos Yogues é o Supremo Senhor.

Depois de completar a constituição da Hierarquia, Narayana propôs a coroação de Yoga Devi, como Rainha do Mandalam, e determinou que o trabalho da Associação deveria ser levado adiante sob suas instruções. Possivelmente o significado dessa coroação prende-se ao fato de Narayana dispor ao Mandalam um Centro de onde, segundo a linguagem do Sr. T. Subba Row, flui a força que cria e mantém o vínculo de fraternidade e empatia espiritual, que perpassa a longa sucessão de Hierofantes do mundo. Em outras palavras, Yoga Devi pode certamente ser descrita como o Sutratma12 do Suddha Dharma Mandalam, e também da Fraternidade. Depois da coroação, cada um dos sete Hierarcas recebeu uma Yogadanda13, ou bastão magnetizado, com propósitos ainda não revelados.

Em seguida foram definidas as jurisdições territoriais com seus respectivos subordinados. Foi determinado que toda a Fraternidade deverá reunir-se em Badari no dia de lua cheia de Vaishak (maio), de cada ano, para dispor sobre o plano de trabalho que será levado a efeito até a lua cheia do mesmo mês de Vaishak, do ano subseqüente.

Deixando de lado, por enquanto, os detalhes da constituição da Organização, voltemos nossa atenção ao que aconteceu durante seu desenrolar. Durante suas seções, Nara e alguns dos Sábios presentes expuseram algumas questões com a intenção de perscrutar a opinião de Narayana. Essas perguntas e suas respostas interessarão aos teósofos. Temos autorização para referirmo-nos somente a um ponto, aludido pelo Sábio Hamsa Yogue: ele expressou sua séria preocupação com o rumo que a Assembléia decidiu implantar, pois isso poderia levar à negligência quanto ao cuidado dos preceitos do Shastra14, o que, eventualmente, poderia resultar em total declínio do Dharma em nosso planeta. A essa indagação Narayana respondeu que a Yoga Brahma Vidya, cuja difusão tem sido Seu maior objetivo, encontra-se na raiz mesma do próprio Dharma e conseqüentemente, não havia fundamento para o temor do Yogue. Narayana prosseguiu explicando que o Dharma é dividido em Dharma, Paradharma e Paramadharma: Dharma refere-se somente às circunstâncias especiais de determinados indivíduos; Paradharma refere-se aos interesses de outros seres, em uma etapa particular da evolução; Paramadharma transcende tais limitações e forma, em realidade, o verdadeiro suporte das outras duas.

Citando o Shruti15, continuou: “O Amor é certamente a Cabeça16. Concluindo, Narayana argumentou que aqueles que alcançarem o conhecimento da Yoga Brahma Vidya alcançarão o amor universal, e por meio dele chegarão a ser praticantes do mais elevado Dharma. Com referência ao estudo dos Shastras, assunto sobre o qual também havia se referido Hamsa Yogue, Narayana expressou a necessidade de que se compreenda os ensinamentos esotéricos, contidos nesses escritos, como também no Chandogya (e outros Upanishads), no Mahabhárata, no Ramayana e em certos Puranas principais. Para dar um exemplo, Narayana explicou o significado esotérico de alguns conhecidos versos encontrados no Mahabhárata, no Ramayana, no Bhagavad Gita, e também em um dos Vishnu Purana. Concluiu essa parte do diálogo, observando que em uma ocasião anterior, Ele já havia instruído sobre as interpretações esotéricas de um grande número de passagens importantes, inseridas nos escritos referidos, que estão compilados no tratado conhecido como Kandarahasya. É importante citar aqui a explicação dada ao referido verso do Mahabhárata. Ao traduzi-los como ele é normalmente entendido, teríamos a seguinte redação:

Narayonam Namahskritiya, Naram Shiva Narottamam; Devim Saraswatim, Vyasam, Tato Jaya Mudirayaêt.”

“Depois de saudar a Narayana, Naradeva, Narottama, Saraswati Devi e Vyasa deverá ser recitado o Bharatam” (Brahma Samipya, ou Proclamo a Vitória)

A chave, neste caso, efetua duas voltas: Na primeira, revela o seguinte significado: Narayana é o Parabrahman, o Todo; Naradeva é a humanidade, um raio do Parabrahman; Narottama é a humanidade divinizada, ou sobre-humana; Saraswati Devi, Gnana Shakti do Parabrahman é, portanto, a fonte de toda Sabedoria e Vyasa é o indicador do poder cósmico que, de tempos em tempos, revela essa Sabedoria. Somente aqueles que compreenderem verdadeiramente tudo isso, após subjugar o núcleo egoísta de seu próprio Ahamkara, pode proclamar êxito (Brahma Samipya17).

Na segunda volta, revela o seguinte: Narayana é o Maharishi que, no momento, está encarregado do governo espiritual do mundo. Ele é o Adhishtata do Suddha Dharma Mandalam; Naradeva representa a humanidade no globo terrestre; Narottama, o representante dessa humanidade, neste Mandalam; Saraswati é a Yoga Devi e Vyasa é o Hierarca encarregado das funções de estudo, aprendizagem e educação. Somente aquele que conhece essa verdade pode proclamar plena vitória.

O termo em sânscrito, Namaskritya, citado no mantra, sintetiza as revelações desvendadas pelas duas voltas da chave, dando assim a interpretação esotérica do verso. Esse termo em si significa “depois de saudar”. Mas o termo Namaha, se dividido em Na e maha significa “o eu rendido”, o que quer dizer, o núcleo de egoísmo do Ahamkara subjugado; tal atitude de rendição é passo indispensável para se chegar a Iluminação Espiritual. Quando esta acontece, fica revelado para o buscador que ele alcançou a verdadeira finalidade da vida e que o Yayam, o verdadeiro êxito, foi de fato conquistado. Certamente, devemos lembrar que a Iluminação Espiritual não consiste em mera compreensão dos Shastras. O Brahma Vidya (conhecimento do Absoluto) sem Yoga (síntese) é apenas um conhecimento intelectual dos grandes ensinamentos dos Upanishads, ou de outras escrituras similares. Somente por meio da Yoga (Síntese)  conhece-se verdadeiramente O Real18.

Somente no elevadíssimo estado de Samadhi, gozamos a verdadeira bem-aventurança e deciframos o mistério da existência. É a esse estado transcendente que Gaudapadacharya, um dos maiores Mestres hindus, considerado por Shankara como avô espiritual da Índia, faz alusão na estância final de seu Mandukya Karika, aceita por todos à luz do próprio Upanishad. A citação diz:

“Sumamente difícil de compreender, extremamente magnificente, incriado, imortal, de constante fulgor; tendo assim alcançado o estado da não-dualidade, torna-se possível a entrega total”.

Por isso, através de todo o Chandrika, não se usa simplesmente o termo Brahma Vidya, mas o termo completo: Yoga BrahmaVidya. E no verso que sucede aquele em que Narayana descreve sua própria natureza, Ele expressa a determinação de proclamar a Yoga Brahma Vidya com a cooperação de Yoga Devi e dos Sábios reunidos na Assembléia. Como já mencionamos, a fundação do Suddha Dharma Mandalam foi efetivada para assegurar a promoção dessa Vidya na Era de Kali, efetuando com isso a mudança necessária do Dharma, tal como deveria se observar, para colocar os pressupostos dessa Suprema Ciência ao alcance de todos, sem a menor distinção de nacionalidade, raça, casta, credo ou sexo.

A nossa tentativa para dar uma idéia dos conteúdos do Anushtana Chandrika ficaria incompleta sem uma breve descrição do Anushtana, ou disciplina prescrita para os Dasas e Tirthas, porém tal descrição será adiada por enquanto. Antes de concluirmos esse artigo, queremos acrescentar que a existência da Escola Esotérica da Sociedade Teosófica, de nenhuma maneira faz com que o trabalho da Organização do Suddha Dharma Mandalam seja supérfluo. Se, por uma razão ou outra, alguém não quiser associar-se à Escola Esotérica da Sociedade Teosófica, o Suddha Dharma Mandalam é a Instituição à qual qualquer aspirante ao Yoga pode recorrer para obter um treinamento efetivo. Além do mais, sempre haverá alguns para os quais a rígida e antiga disciplina da Organização Suddha será sumamente atrativa, uma vez que ela sempre assegura uma quantidade razoável de resultados perceptíveis, desde que não exista falta de perseverança em submeter-se às disciplinas propostas. Um atrativo para essas pessoas é seguramente o uso constante de mantras e rituais, como parte da disciplina. Não há dúvida, do ponto de vista teórico, que o curso da meditação prescrito também é perfeito. É, portanto, gratificante para todos aqueles que estejam interessados em praticar Suddha Raja Yoga, saber que os oficiais da Organização do Suddha Dharma Mandalam decidiram que seria conveniente chamar a atenção do público para sua existência, levantando assim o véu que a encobria.

Queremos ainda ressaltar que a ocasião precisa em que se permitiu retirar o véu é, a nosso parecer, curiosa, pois foi quase simultânea ao encerramento temporário da Escola Esotérica, conhecida como “Seção Esotérica da Sociedade Teosófica”. Tendo em vista que a Organização da qual estamos tratando e a Escola Esotérica não eram instituições rivais, já que ambas floresceram sob a proteção da mesma Fraternidade e com o mesmo propósito, qual seria a razão de tal acontecimento? Qualquer pessoa na posição em que nos encontramos só pode tecer conjecturas a respeito.

Pode ser que a Seção Esotérica da Sociedade Teosófica tenha descuidado de seus ensinamentos, devido ao abandono das responsabilidades que lhe cabiam, requerendo ser suspensa por um tempo. Ou possivelmente, tenha sido considerado que os esforços sistemáticos, feitos pela sociedade local, para levar a Seção a um descrédito não merecido, tenham calculadamente retardado sua utilidade, por enquanto, como uma escola para neófitos (novatos),  devido ao estado da atmosfera moral, havida nessa localidade, de malícia, falsidade e ingratidão. A isso se deve, provavelmente, o passo de fechamento temporário, da Seção Esotérica da Sociedade Teosófica.

Pode ainda ser que tenha se pensado que o público em geral não poderia sofrer pela má conduta de uma parte da Seção. Nesse caso, o alçar do véu da Organização teria sido considerado um remédio conveniente nessas circunstâncias, já que o ódio racial e de cor que se desencadeou contra o Chefe da Seção Teosófica, não poderia atingir os Mestres da Organização do Suddha Dharma Mandalam. Além do mais, é possível que se tenha pensado que sua disciplina seria especialmente mais aceita pelos hindus, devido ser de caráter tradicional e antigo; assim, haveria a tendência a manter um pouco mais aberta a porta, na Índia, aos aspirantes ao Yoga.

Não podemos deixar de observar que, ao adotar tal passo, os Mestres do Mandalam não tiveram a intenção de abrandar a disciplina, como se comprova nas perguntas que o discípulo deverá responder e nas promessas preliminares que ele deverá fazer antes de obter a admissão na Organização. Solicitamos aos nossos leitores que não nos façam a injustiça de pensar que os estamos convencendo de que somos Ocultistas, capazes de instruir qualquer pessoa sobre qualquer mistério. Somos meramente os interlocutores Daqueles que desejam que a existência e o caráter da Organização do Suddha Dharma Mandalam não permaneçam, por mais tempo, desconhecidos, no mundo atual. Apesar de negar toda pretensão de sermos Mestres da Organização, não podemos deixar de esclarecer que alguém que tenha a coragem de solicitar a admissão a ela, em momento algum terá necessidade de arrepender-se do passo que tomou, a não ser por seus próprios desvios. Pelo contrário, ele logo achará que colocou seus pés na escada que conduz à mais elevada meta, e que a bênção dos Mestres do Suddha Dharma Mandalam sempre estará com ele.

Sri Subrahmanyananda
Agosto de 1915

Notas

  1. Este texto foi escrito por Subrahmanya Iyer em 1915.
  2. O citado livro será brevemente publicado em português pela Editora Ecos da Síntese.
  3. O autor refere-se aqui aos Mestres Morya e Kuthumi.
  4. No início do século passado, em 1915.
  5. Ishwara é o nome dado ao representante de Brahman em nosso sistema. Este vocábulo representa, de fato, a Consciência Divina que nós todos possuímos. Nesse contexto, significa o Diretor Espiritual de nosso sistema planetário, ou Ishwara Narayana.
  6. Gnana, Iccha e Kriya são três faculdades inerentes aos seres humanos para que evoluam no mundo da ação (nosso mundo). Através dos poderes dessas três faculdades, as ações são consumadas. A cada uma delas corresponde uma energia ou potencial de poder: Gnana Shakti carrega o poder de cognição do Eu Superior; refere-se a faculdade que é constituída não apenas pelo conhecimento teórico, mas pela inteligência aplicada, que inclui outros aspectos complementares, como a memória, o discernimento, etc. Gnana é, portanto, Sabedoria Espiritual. Iccha corresponde ao desejo; é, de fato, um dos aspectos da Shakti, ou Poder do Parabrahman.  Iccha Shakti é o poder que alimenta a faculdade constituída pelas múltiplas variações do desejo: a vontade, os gostos ou afinidades, a devoção, a aspiração etc. O desejo é a essência do funcionamento da mente emocional no homem, por isso tem relação também com o seu oposto, a aversão. Nos seres humanos carentes de devoção, Iccha só cria apegos (tanto materiais quanto espirituais), mas é o propulsor à devoção quando é direcionado ao Ishwara. Kriya Shakti, energia ou poder da ação, é a fase atuante do Poder de Deus e a característica fundamental nos mundos manifestados. Todos nós, seres humanos, podemos participar conscientemente da atividade Brahmica (Divina) no aspecto Kriya, desde que alcancemos um estado em que vibremos em sintonia com os segredos revelados dos processos dos mundos.
  7. Era de Kali, Kali Yuga, ou Idade Negra do Mundo, é a Era em que vivemos. A palavra Yuga significa período cósmico, ou Era. O início do Kali Yuga ocorreu há cinco mil anos e, apesar de sua aparente conturbação, torna-se possível acelerar a evolução da raça humana pela observância e vivência prática do Dharma Suddha. Nessa Era a qualidade trigúnica dominante é Tamas. Nela, 75% das pessoas deixarão de observar o Dharma (assim já está previsto). O advento do Kali Yuga ocorreu há pouco mais de 5.000 anos e, desde então, o Dharma vem perdendo sua eficácia, uma vez que a qualidade Tamas (ou ignorância) ameaçou estender seus tentáculos a todos os seres humanos. No início do Kali Yuga esteve entre nós o Buddha Avatar, com a missão de instilar no planeta o princípio Ahimsa, que se resume em não causar dano a nenhum ser vivente e, portanto, acabar com os funcionamentos de violência. Por ser o último período do ciclo evolutivo de quatro Eras dos seres humanos no planeta, nele é possível acelerar nossa evolução e alcançar a Realização, bastando para isto, a observância prática dos Princípios do Suddha Dharma. No Kali Yuga todos os homens chegarão a formar uma só classe e passarão a seguir um único código de conduta.
  8. Varnashrama: Palavra composta de Varna (castas) mais Ashrama (no sentido de etapas de existência). É o nome de uma Escola Vedanta existente na Índia. Dentro de uma visão estritamente Vedanta, há uma Ordem de Samnyases, reconhecida como parte integrante da Escola Varnashrama Dharma, com uma quádrupla divisão da vida individual dentro da estrutura de castas na estratificação social, que são: Brahmacharya – o estudante celibatário em fase de instruir-se e preparar-se, adquirindo conhecimento dos Vedas e de outras Ciências, com vistas a qualificar-se para progredir na vida; Grihastha – guardião da geração ou da linhagem (monges que vivem em matrimônio); Vanaprastha – morador ou habitante do bosque (eremita) e Bhikshu ou Samnyasi – aquele que renunciou a todo envolvimento mundano, tais como: posses, relacionamentos sociais ou qualquer proveito pessoal a fim de seguir uma via de realização de Brahm. A classificação mencionada não foi considerada relevante na Assembléia referida no texto de Sri Subrahmanyananda, para a transmissão dos ensinamentos da Yoga Brahma Vidya, uma vez que todos têm possibilidade deste acesso. Complementando esse comentário sobre a diferenciação entre o significado de Samnyasi da linha vedanta e da linha preconizada pelo Gita do Suddha Dharma Mandalam, transcrevemos um trecho do ensaio escrito por Sri Janárdanam sobre o tema:
    “Segundo a Escola Vedanta, Samnyasi ou renunciante é a pessoa dedicada à busca do estado de Naishkarmia. A Escola Vedanta entende o termo Naishkarmia Siddhi como sendo o poder de ficar em estado de total inatividade originado pela renúncia de toda classe de ações ou mesmo de busca a seus frutos no mundo objetivo. Porém o conceito de Naishkarmia Siddhi ensinado no Suddha Dharma Mandalam difere fundamentalmente deste, e conseqüentemente, o conceito de Samnyasi também. Naishkarmia, segundo o Gita, versão revelada do Mandalam, é o logro de um estado de inatividade alcançado, não através da renúncia a toda classe de ações no mundo, e sim, através da expressão final e conclusiva no funcionamento objetivo, isto é, pela consumação da obra no mundo.”
  9. A existência da Hierarquia nos foi dada a conhecer publicamente justamente com o propósito de despertar nos seres humanos que já alcançaram uma etapa superior no transcurso de suas vidas, o desejo de participar ativamente no Plano Divino (Providência ou Decreto Divino). Por esse propósito a “Editora Ecos da Síntese” recebeu autorização para reeditar o presente livro, em tão conturbado momento da história mundial, no início do século XXI.
  10. Rodapé do texto original de Sri Subrahmanyananda: Não é de estranhar que na véspera da composição da imortal epopéia, Valmiki, o Maharishi que já conhece a senda (como expôs Kalidasa), tenha buscado inspiração e instrução neste Mestre dos Mestres. O senhor T. Subbha Row freqüentemente dizia que a obra é muito mais que uma epopéia; ela é um verdadeiro repositório onde fica guardada a mais profunda sabedoria oculta.
  11. Subrahmanya aqui citado não se refere a Sir Subrahmanya Iyer.
  12. Sutratma por ser o Aspecto Imanente de Deus, pode ser comparado ao fio que une as contas de um colar; em algumas traduções o termo aparece como elo ou fio da alma.
  13. Rodapé do texto original de Sri Subrahmanyananda - Swami Shivananda, um oficial de elevado nível na Organização, leva consigo, durante suas viagens, uma Yogadanda que é um bastão de madeira, com dois palmos e meio de comprimento, cerca de uma polegada de espessura, contendo em seu interior um cilindro de ouro; possui a figura de dois triângulos entrelaçados, dentro de um círculo, na ponta superior. Sua última visita a esta Presidência aconteceu há dois anos. A comitiva que o acompanhava era composta apenas de Samnyasis que efetuavam todos os serviços necessários, já que ele não empregava serviçais para nenhum propósito.
  14. Shastra é o ramo do estudo comparado das religiões que trata de seu Objeto Primordial (Deus) e, portanto do ideal de todas as aspirações humanas, em toda a sua amplitude; estuda e apresenta reflexões sobre o Ser Primordial e Absoluto e seu funcionamento. Nos Shastras, o estudante devoto encontra diretrizes e orientações. Para o estudante Suddha, essas orientações devem ser buscadas no Sanatana Dharma Dipika, no Srimad Bhagavad Gita e em outros textos revelados pelos Mestres do Suddha Dharma Mandalam. Aqueles outros que professam uma das diversas religiões comuns ao mundo ocidental buscam suas orientações nas Escrituras da religião que tenham escolhido: a Bíblia para os cristãos (católicos, espíritas e evangélicos), o Alcorão para os muçulmanos etc.
  15. Shrutis são os textos sagrados, ou tradição sagrada recebida por revelação divina.
  16. O termo cabeça é utilizado aqui como o centro de onde promana tudo.
  17. Brahma Samipya é a aproximação eterna a Brahman. Ao atingir esse estado, o ser em evolução usufrui de indescritível bem-estar, material e espiritual, e continua suas etapas evolutivas. Diz-se que alguém alçou Brahma Samipya quando alcançou o quinto Purusharta, a mais elevada finalidade humana. É de fato a etapa final, a libertação. Há três outras etapas que a antecedem: Salokya, Sarupya e Sayujya. Apesar do engano cometido por muito pensadores, de achar que o objetivo final da evolução é a reabsorção no Infinito Brahman, o Suddha Dharma revela que tal equívoco levaria a supor que o Absoluto, origem de todas as individualidades (Seu reflexo no Mundo manifesto) as reabsorveria ao final da evolução. Isto é absurdo, pois, se assim fosse, Ele deixaria de ser o todo para se tornar um caos, um somatório de individualidades, em vez de Perfeição Absoluta. Além do mais, isto seria também afirmar a aniquilação da individualidade criada, negando assim, qualquer propósito ao plano evolutivo. Então Brahma Samipya é a solução lógica com relação ao estágio máximo alcançado, pois admite a continuidade eterna da individualidade dos egos em expansão ilimitada, e sempre crescente em seu nível de consciência. Dados extraídos da Obra Yoga Dípika revelada por Sri Baghavan Narayana e editado pelo Pandit Srinivasachariar, em 1916.
  18. É com vagar que nós crescemos na compreensão de que o Eu Superior é o homem, e o que vemos aqui na Terra é apenas uma parte muito pequena Dele. Pouco a pouco aprendemos que só há uma Consciência, e o que chamamos de “consciência inferior” nada mais é que uma imperfeita representação da Consciência Superior, não estando, de modo algum, separada dela. Costumávamos pensar em elevarmo-nos até que pudéssemos unir-nos ao Glorificado Ser Superior, não percebendo que Ele é o verdadeiro Eu, e que unir o superior ao inferior realmente significa abrir o inferior para que o superior possa trabalhar nele e através dele. Internalizar isto é a verdadeira sabedoria e não simples erudição. De nada adianta estudarmos e compreendermos teoricamente tudo isso, sem a verdadeira sabedoria, que é sintética e não analítica. Não adianta dissecar o saber, devemos aprender de forma aplicada esse conhecimento. Portanto, no presente, é nossa tarefa percebermo-nos como Egos, mas quando isso for plenamente realizado, quando o eu inferior não passar de um instrumento perfeito nas mãos do Eu Superior, será nosso dever perceber que, mesmo o Ego não é o homem real, já que teve um início – passou a existir no momento da individualização – e o que quer que tenha tido um início deve ter um fim. Portanto mesmo o Ego, que tem perdurado desde que deixamos o reino animal, também não é permanente. Não haverá então nada em nós que perdure, nada que não se acabe? Há a Centelha Divina que é verdadeiramente um fragmento de Deus, um átomo da Deidade. Essas são cruas e inexatas expressões, certamente; mas não conheço outra maneira pela qual a idéia possa ser explicada, pois cada individualidade é literalmente uma fagulha de Deus na aparência, temporariamente separada Dele, enquanto estiver encerrada nos véus da matéria. Na verdade, jamais, em momento algum, realmente esteve separada, porque ela jamais pode apartar-se de Deus, pois a própria matéria na qual vela a si mesma também é uma manifestação do Divino. Para nós, algumas vezes, a matéria parece ser má, porque nos carrega para baixo, embota nossas faculdades, parece arrastar-nos para trás, em nosso caminho; mas lembremo-nos que isso acontece porque ainda não aprendemos a controlá-la, porque ainda não percebemos que ela também é divina em sua essência, porque não existe nada exceto Deus. Extraído de texto de Leadbeater sobre a Mônada, na revista The Theosofist, 1913. Comentário dos editores: Isso é sabedoria; saber aplicado, vivo, real. De forma elementar, podemos dizer que Sabedoria é possuir determinada informação aliada ao conhecimento de como ela pode ser útil em uma situação específica. A sabedoria seria uma propriedade interna do sujeito, um tipo de inteligência prática, não apenas emocional e intelectiva, mas sistêmica e global por permitir-lhe orientar-se no mundo e saber o que fazer em determinadas situações com a informação de que dispõe. Se pararmos um instante para pensar, iremos reconhecer que, em ao menos uma coisa somos completamente sábios, ou seja, somos sábios no conhecimento que temos de nossa experiência de vida e das coisas que acontecem conosco, e este é um conhecimento único. Compreensão vasta e variada dos Shastras, adquirida sobretudo pela leitura e pelo estudo, notadamente direcionada a um aprofundamento de cunho teórico simplesmente, é mera erudição. Pode-se chamar de sábia uma pessoa erudita, embora a rigor o conceito de sabedoria deva incluir também competências mais amplas, como prudência, discernimento átmico e experiência de vida.
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