Brahmavidya - A Ciência Sintética do Absoluto

Sábado, 21 Setembro 2013 17:54 | Escrito por 

O Arquivista do Brahmavidyashrama, meu bom amigo Dr. Cousins, teve a gentileza de me pedir um comentário para estas seis conferências realizadas pela Presidenta do Ashram, Drª Annie Besant, sua fundadora, durante a semana na qual começou auspiciosamente o trabalho do Ashrama. Minha tendência primeira foi contrária à aceitação do pedido, pela simples razão de que, para mim, pretender ser competente para apresentar ao público em geral, com quaisquer palavras minhas, esses brilhantes discursos da minha querida Mestra, seria manifesta presunção. Essa tendência, entretanto, foi superada pelo fato de que a aceitação do pedido do Arquivista iria dar-me a oportunidade de expressar minha grande satisfação pela forma como ele e os conferencistas do Ashram cooperaram com a Presidenta-Fundadora, Drª Annie Besant, para que esse Centro que abrange a mais autêntica Cultura Mundial se tornasse uma realidade.

Não tenho dúvida de que, quando me aventurei, em dezembro de 1921, a oferecer alguns comentários sobre o assunto referente à conveniência de ser adotado, na Universidade Nacional de Adyar, o treinamento moral necessário como uma preliminar ao ensino da Yoga, muitos amigos pensaram que eu estivesse acalentando um sonho que jamais se tornaria realidade. Estou certo de que aqueles céticos amigos sentem-se, agora, tomados de surpresa, e encantados, ao encontrar o Ashram como um fato consumado dentro de tão curto espaço de tempo, fornecendo não só o limitado treinamento que eu tivera em vista, como também estudo e pesquisa ao longo das grandes linhas que convergem para a realização da Yoga, a União com o Espírito Divino, o trecho final do desenvolvimento humano.

Que essa é a ampla finalidade do trabalho que se pretende realizar no Ashram revela-se no nome com tanta felicidade escolhido para ele. Não poderia ter sido lembrado outro mais apropriado e verdadeiro para a nossa recém-nascida instituição. O Brahmavidya implica muitíssimo mais do que o conhecimento de Brahman (o Ser Supremo) que só o intelecto atinge. A palavra Vidya (conhecimento), nesse contexto, implica a realização do Divino estado de percepção, objetivo de todos os que procuram Brahman. Há um grande aforismo que diz: Brahmavid Brahmaiva Bhavati (O conhecedor de Brahman torna-se o próprio Brahman); e é nesse sentido de tornar-se que a palavra em questão é usada nos Upanishads, com referência a certas formas de contemplação e culto dos Poderes Divinos, ensinados pelos Rishis de outrora.

A seguir, quanto ao futuro do que foi introduzido nos últimos meses, acredito que ele é, na verdade, o plantio de uma semente que crescerá para fazer-se árvore poderosa de conhecimento e saber, que daqui a séculos será encontrada às margens do rio Adyar, tal como foi descrito por um grande Vidente: uma Universidade central para a promoção de estudos através das linhas indicadas nestas conferências, com centros subsidiários em várias partes do mundo, filiados a esse centro. Devo acrescentar que minha mente vê além, nesta publicação dos discursos inaugurais da Presidenta, o inicio de uma benéfica literatura que se originará dessa instituição central em tempos vindouros, quando a humanidade tiver alcançado um nível maior de discernimento e organização social, dando, assim, campo mais vasto para a difusão das idéias contidas e indicadas nessas conferências.

Agora, voltando aos programas que são trabalhados pelos estudantes do Ashram, e aos ideais a serem firmemente mantidos em suas mentes, parece-me que os estudantes se beneficiarão muitíssimo – especialmente aqueles que fizerem o curso de dois anos – não só do ponto de vista de seu crescimento interior, mas, também, da sua utilidade e de seu valor como membros da sociedade.

Como item essencial nesses estudos, os dirigentes do Ashram providenciarão para que os estudantes aprendam e assimilem, integralmente, as cinco verdades, vitais e profundas, com as quais todo aspirante ao Brahmavidya deveria estar familiarizado desde o início. As primeiras três verdades formam um grupo separado, enquanto as duas remanescentes formam outro grupo. As primeiras enquadram-se na categoria da Paramartha Satya – Verdades que são absolutas em razão da sua relação específica com Brahman – em seu aspecto de transcendência Sem Espaço, Sem tempo e Sem Mudança. O segundo grupo deve ser reconhecido como Vyavahara Satya – Verdades que são relativas por causa da sua conexão com as Ideações Divinas que trabalham por si próprias no Espaço e no tempo, e assim envolvem Mudanças – Samsara ou evolução.

A essência dos ensinamentos da Ciência Sagrada, sobre o ponto em referência, pode ser assim expressa:

  1. TUDO, VERDADEIRAMENTE É BRAHMAN.
  2. A NASCENTE DE TUDO, SEJA DO QUE FOR, DEVE SER ENCONTRADA NA PRÓPRIA E VERDADEIRA NATUREZA DE BRAHMAN.
  3. TUDO, DESSE BÁSICO PONTO DE VISTA, É INEVITÁVEL.
  4. TUDO QUANTO PROMOVE E ATIVA A EVOLUÇÃO É ‘MANTAVIDYA’ – CONCEBÍVEL, CORRETO.
  5. O QUE QUER QUE IMPEÇA OU RETARDE A EVOLUÇÃO É ‘AMANTAVIDYA’ – INCONCEBÍVEL, ERRADO.

Um estudante que deixe o Ashram, saturado do conhecimento e do espírito desses importantíssimos princípios citados acima, para não falar em nada mais, estará, provavelmente, pronto para prestar serviços de valor prático à comunidade em que sua sorte pode tê-lo lançado, particularmente nestes tempos perturbados, tão envenenados pelos conflitos entre as raças e entre as classes. Ele saberá que todos os que presentemente estão sujeitos a injúrias e prejuízos, nas mãos de alguns dos seus semelhantes, apenas estão colhendo o que semearam no passado, e que seus sofrimentos não passam do resultado natural da lei de casualidade, de Justiça perfeita, que não é outra coisa senão Brahman trabalhando em manifestação, sempre reajustando o que, não fosse isso, formaria um caos inimaginável no Cosmos inefável que é. O estudante não pode, portanto, deixar de conceder amplo desconto aos que causam prejuízo aos seus irmãos, pois vê nesses malfeitores apenas instrumentos que a Lei Suprema encontra prontamente à mão, para seu desempenho. Sentirá, portanto, que esses malfeitores, quando sua retribuição chegar, em tempo devido, terão de pagar pesadamente pelos seus crimes, e que seu caso provoca mais piedade do que cólera, ressentimento e retaliação. Assim sendo, esse estudante, em vez de formar o ódio entre o opressor e o oprimido, como agora, tristemente, é a moda, levando ambos à desgraça e à ruína, procurará despertar a boa vontade na esfera da sua influência, por pequena que ela possa ser. Ainda mais, esse pacifista, tentando remediar o infeliz estado de coisas com que se depara no lugar de seus futuros trabalhos, irá empenhar-se em reformar tais coisas através de meios que são Mantavya, evitando, com perseverança, recorrer aos meios de feição oposta, Amantavya, por causa da sua tendência a destruir a lei e a ordem, despertando más-vontades, que, forçosamente, se expressarão em violência, derramamento de sangue e desordem.

Se o Ashram nada mais fizer senão enviar, de vez em quando, estudantes que irão servir como centros de luz e concórdia em sua vizinhança, trabalhadores da linha reta, agora tão urgentemente necessária em todo o mundo, o Ashram, como sua Alma Mater, irá, com justiça, ganhar a gratidão de todos os que pretendem apressar, por toda parte, a realização dessa necessidade, a maior do momento presente.

Com referência às conferências inaugurais, a primeira atividade do Brahmavidyashrama: elas contêm o fruto da observação e do estudo, e da meditação, obtido, em torno de quase todos os aspectos e atividades da vida humana, durante meio século, pelo mais versátil gênio, felizmente ainda entre nós, que, durante esse tempo, se aperfeiçoou, trabalhosamente, em seu intelecto, em suas emoções, levando essa perfeição para a sua vida cotidiana. Esses discursos são, portanto, ricos de substância, não apenas por ser provada, mas para ser mastigada e digerida por todos os que desejam enriquecer-se, nutrindo-se desse raro e concentrado manancial de sabedoria sintética. Estou certo de que poucos entre os que estudarem estes trabalhos irão dizer que nada aprenderam de original e sugestivo com referência aos assuntos luminosamente discutidos pela oradora. Mesmo estudantes que estão mais ou menos familiarizados com os tópicos tratados por ela, muitas vezes irão encontrá-los apresentados de um ponto de vista ao mesmo tempo novo e elevado, e sempre de olhos postos no bem-estar humano. Exemplo apropriado será visto na posição tomada por ela, dizendo que o conhecimento é sagrado, e na bem merecida denúncia da iniqüidade da prostituição das descobertas científicas, com sórdidos propósitos mercenários e para a destruição da vida. Seria bom que o mundo científico pudesse compreender o lamentável desserviço que tem sido feito à causa da civilização pelo uso perverso de algumas dessas descobertas, em anos recentes. Tal como a conferencista faz sentir, o mau uso dessas descobertas compele os Poderes que guiam os destinos da humanidade a deter, por enquanto, a aquisição, pelos cientistas do momento, do conhecimento das forças da Natureza, cujo uso correto daria à humanidade a possibilidade de fazer um céu sobre a Terra.

Concluo com uma fervorosa oração. Possam as bênçãos dos Guardiões da nossa atormentada humanidade repousar sempre neste Ashrama, a última realização de Seus ilustres servidores, em seus incessantes esforços para levar adiante Seus benignos planos para a elevação dessa mesma humanidade.

S. Subramanyananda
Primeira Autoridade Iniciática Externa do Suddha Dharma Mandalam

Ler 93825 vezes Última modificação em Quarta, 25 Setembro 2013 18:49