Introdução ao Estudo do SRIMAD BHAGAVAD GITA

Segunda, 18 Maio 2015 21:33 | Escrito por 

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO SRIMAD BHAGAVAD GITA

Dedicado, com profunda reverência, a Sri Bhagavan Narayana, a Sri Yoga Devi e aos Anciãos Hierarcas do Suddha Dharma Mandalam.
R. Vasudeva Row

O tema do Sri Bhagavad Gita, o Sagrado Colóquio, que trata das perguntas e investigações de Arjuna e da explicação dada pelo Senhor, pode, para facilitar sua compreensão, ser examinado brevemente através de quatro temas para estudo:
1. A natureza da meta que há de ser alcançada;
2. A forma da disciplina introspectiva que conduz à meta;
3. As qualidades e condições do discípulo que aspira alcançar a meta;
4. O funcionamento objetivo do aspirante no mundo externo, projetado para capacitá-lo a trabalhar de acordo com as necessidades da disciplina introspectiva que haverá de conduzi-lo à meta.

 

Temos a esperança de que esta forma de aproximação a este Evangelho Universal sirva também ao propósito de aclarar a filosofia essencial contida em seu ensinamento.
Os tópicos a serem estudados são:
1. A Meta, descrita como “Upasya Vastu”;
2. A forma da disciplina introspectiva, denominada “Upasana”;
3. O discípulo, chamado “Upasaka”;
4. O funcionamento objetivo do discípulo que se denomina “Jagat Vyavasaya”.

 

PRIMEIRA PARTE - JAGAT VYAVASAYA

FUNCIONAMENTO GERAL

De modo geral, funcionamos, principalmente em relação ao tríplice processo do mundo manifestado, por meio do poder e energia de nossas três faculdades: Conhecimento (Gnana), Desejo (Iccha) e Ação (Kriya).
No entanto, alguns seres santificados são transportados com imensa felicidade a um estado de celestial bem-aventurança, funcionando principalmente no nível yóguico ou sintético.
(Gita-XVIII-18) – O aspirante bem disciplinado está normalmente desperto no plano da consciência átmica, o qual é noite para os outros seres que atuam no tríplice processo do mundo (Samsara); já ao contrário, no tríplice Samsara, onde os seres comuns estão dispertos em suas funções normais, é noite para o Sábio Vidente.
As seções seguintes apresentam um resumo do exposto no parágrafo anterior e, também, do funcionamento introspectivo dos seres nele mencionados. Podemos observar, neste resumo, a natureza do excelente esforço empreendido pelo indivíduo normal, para progredir no tríplice processo do mundo até alcançar o funcionamento superior e como age o verdadeiro yogui, no tríplice samsara.

AS AÇÕES
Sua execução é uma necessidade

A vida, à medida que a vivemos, é para nós uma sequência de ações e omissões. Portanto, é desnecessário dizer que sempre estamos em atividade.

(Gita-XVIII-20) – Contudo, nenhuma pessoa pode permanecer, nem mesmo por um momento, sem executar

alguma ação física ou mental; mesmo em estado de sono há atuação; forçosamente toda ação é efetuada pelas trigunas, nascidas da Prakriti (Matéria).

(Gita-XIX-18) – A realização das ações nunca pode ser abandonada inteiramente; aquele que renuncia ao fruto de toda ação necessária é considerado um verdadeiro renunciante (Tyague ou Sannyasi).

A Grande Lei não admite a inatividade e a inércia. A execução das ações necessárias que, por nossa própria natureza devemos realizar, ainda que seja imperfeita e manchada pelo desejo dos resultados ou frutos, é preferível à não execução das mesmas.

(Gita-XXI-21) – Oh Kaunteya! não deixe de fazer a ação necessária,  ainda que seja manchada pelo desejo de seu  fruto, pois todas as atividades estão assim manchadas, como a chama está pela fumaça. Desde que a ação seja necessária, mesmo que manchada pelo nosso egoísmo, é melhor realizá-la, do que se omitir dela.

A não execução da ação necessária, resultante de uma obsessão egoísta, não pode ser cumprida, porque as trigunas constantemente nos impulsionam à ação. Portanto, não podemos evitá-la.

(Gita-XXI-22) – Se estás obcecado pelo egoísmo e decides: “não lutarei”, as Trigunas nascidas da Prakriti (Matéria) impelir-te-ão à lutar (atuar), e assim tua resolução não se cumprirá.

(Gita-XXI-23) - Ó Kaunteya! se és impulsionado à ação compelida pelos ditames do Princípio de Vida, e não estás disposto a praticá-la por ignorá-Lo, de qualquer maneira a executarás, impelido  pelas Gunas nascidas da Prakriti. 

A verdadeira renúncia nunca se alcança pela simples abstenção da execução da ação, e sim quando pelo discernimento átmico se conclui a sua desnecessidade; só assim torna-se renúncia genuína.

(Gita-XVIII-19) - O aspirante não alcança transcendência (Naishkarmya-Siddhi ou Karma-Yoga) da ação meramente por omitir-se de executá-la; tampouco obtém a Naishkarmya-Siddhi (Transcendência dos atos) pelo mero abster-se do fruto da ação sem discernimento átmico.

ASPECTOS POSITIVOS E NEGATIVOS DA AÇÃO

A execução de qualquer ação em particular é o aspecto positivo de nossa atividade e chama-se Pravritti. A sua omissão ou não execução designa-se Nivritti e é o aspecto negativo de sua atividade.

NATUREZA DA AÇÃO

A natureza da ação é determinada de acordo com o motivo que a impulsiona, da seguinte forma:

Asuddha (impura) – em consequência, associada com a natureza obscura (Asura-bhava);
Suddha (pura) – portanto, unida à natureza angélica (Daiva-bhava).

A natureza do motivo para execução, ou não, de uma ação determina o valor da mesma como um meio (sadhana) para o progresso ou retrocesso espiritual.
Quando o motivo que induz à execução da ação é pessoal, egoísta, visando à gratificação, ao poder e a posses para si mesmo, ela é viciada ou impura (asuddha). Da mesma forma, quando o motivo para a não execução, ou omissão, de qualquer ação é pessoal, para evitar perdas de prazer, felicidade, nível social, posses, etc... tal omissão, ou não execução, é também viciada e impura (asuddha). O elemento viciante no motivo para execução ou abstenção da ação é chamado “Karpanya Dosha ou Swartha”.

(Gita-I-53) – Meu entendimento se desvia pelo corruptor apego pessoal ao fruto da ação, causado pela ignorância do Supremo Dharma (Suddha Dharma). Aspiro aprendê-lo de Ti; instrui-me nesta Ciência divinamente revelada. Eu sou Teu discípulo, salva-me, ó Senhor! Rendendo-me, suplico-Te!

 (Mahabharata) – “Oh Senhor, todas as pessoas estão completamente dominadas pelas preferências pessoais, considera-me também de igual natureza”.

A reação que incide sobre a pessoa que, dominada completamente por suas preferências, executa ou se omite da ação, é “Kashmala ou Vishama-bhava ou Klibya”. A pessoa afetada desta maneira pelo resultado da ação ou da abstenção viciada é um “Kripana” (desventurado, infeliz).

(Gita-II-3) – Ó Arjuna! Estás dominado pela confusão nascida da falta de equanimidade. Este desequilíbrio é contrário ao espiritual, frustrando a elevada finalidade e tendendo a obstaculizar a beatitude.

          (Gita-II-4) – Ó Partha! (Arjuna) não cedas à inação; isto não é digno de ti, ó tu Conquistador! Rechaça esse deprimente desalento mental e empreende a elevada ação!

 (Gita-XVIII-10) – Ó Dhananjaya! toda ação que não está associada ao sintético entendimento (Buddhi) é ineficiente, aprisiona; busca tu a guia por meio de Buddhi; aqueles que buscam o fruto das ações para eles mesmos são egoístas (Kripanaha).

(Anugita) – “A palavra “mama” (meu), composta por duas sílabas, indica morte (ignorância), enquanto a expressão

“namama” (não meu), composta por três sílabas, significa sabedoria (imortalidade) – Brahmam”.

A atitude egoísta ou pessoal (ahankara, mamatwa), é a semente de onde surge, uma após outra, toda a família das emoções perversas ou viciosas. Isto é: paixão, ira, cobiça, orgulho, vaidade, auto-elogio, crueldade, etc. Essas emoções, se não forem superadas, continuarão governando completamente a atitude da pessoa, ou seja, suas ações. Isso exercerá uma influência terrível em suas relações com seus semelhantes, proporcionando o surgimento de fortes gostos e desgostos, afinidade e aversão, prazer e dor e outras características e tendências separatistas similares.
O contínuo apego ao fruto da ação, resultante da sua execução, ou não, cria no ser uma obstinada persistência para realizar, ou não, a ação com uma crescente motivação pessoal, que o escraviza à ação que quase sempre mancha densamente sua total perspectiva. E essa habitual escravidão o leva a incessantes nascimentos e mortes e a complicações na roda cíclica do samsara, ou tríplice processo do mundo.

(Gita-XXIV-10) – Aqueles que não têm discernimento sintético, gozando no imenso Swarga (Céu mental), deleitando-se com os frutos da ação até a exaustão, descem novamente ao mundo mortal da ignorância. Assim, seguindo os trigúnicos Vedas, em busca dos prazeres; experimentam o nascimento e a morte, estando constantemente envolvidos no próprio Pravritti e Nivritti.

Em outras palavras, a Pravritti e a Nivritti viciadas, sendo impuras (asuddha), produzem escravidão (Karmabandha). Por mais eruditos e iluminados que sejamos, nos momentos de prova e esforço, o egocentrismo nos oferece sutilmente seu tentador cálice de veneno e, na maioria das vezes, sucumbimos a ele. O desalento de Arjuna no momento crítico da batalha, antes de receber a Grande Exortação, pode servir como exemplo do tipo característico da humanidade normal.
Ele, o herói sempre vitorioso, o bem-amado amigo do Senhor, não obstante ser um reto Pândava, estava possuído por um pensamento de vingança, pelos danos que seus primos reais, os Kauravas, haviam causado a ele, a seus irmãos e à Rainha.
Sua posterior resistência à luta estava também possuída pelo pensamento do grande pecado que cairia sobre ele e os seus, por defender uma guerra que acarretaria a matança de tantos homens, de seus próprios parentes, seus superiores e seus mestres. Dessa forma, sua luta objetiva (suddha-pravritti) e sua luta subjetiva (suddha-nivritti ) estavam manchadas pelo ponto de vista pessoal. A palavra “Swajana” (Swa-sua e Jana-gente) é repetida três vezes em seu rogo ao Senhor. E foi precisamente para livrar-se das garras do Egocentrismo (“Karpanya-dosha”) que, rendendo-se completamente ao Senhor e buscando sua Graça, ele pediu seu conselho, inquirindo-o quanto aos meios para transcender a debilidade, não só durante a ação objetiva (Pravritti), como também na ação subjetiva (Nivritti). Pode-se afirmar que a debilidade impede a correta percepção do verdadeiro dever (Sanátana Dharma), o que se torna “dharma sammudhachetaha”.
No Gita, a atitude pessoal em todos os seus mais sutis, diversos e intensos aspectos, é denominada Asura-bhava. Ela necessariamente nos conduz à escravidão e limitação compulsivas e, ao mesmo tempo, nos leva a sucessivos nascimentos e mortes. O Senhor sustenta que as pessoas de natureza demoníaca (Asura-bhava) ignoram a Suddha Pravritti e a Suddha Nivritti.

(Gita-VIII-8) As pessoas viciosas não sabem como funcionar impessoalmente na atuação objetiva, nem tampouco na subjetiva; nelas não há pureza, nem disciplina, nem veracidade.

Pode-se afirmar que entre as Trigunas (Satwa, Rajas e Tamas), Rajas e Tamas tendem à Asura-bhava – natureza obscura. Portanto, a meta de um discípulo ardoroso deve ser, em primeiro lugar, a busca dos meios de liberação dessa escravidão e limitação. A natureza angélica – Daiva-bhava, constitui o primeiro entre os meios requeridos para superar a escravidão. A motivação impessoal na execução, ou não, da ação é a essência da natureza angélica – Daiva-bhava. Essa motivação é a semente das emoções que compreendem as seguintes grandes virtudes: intrepidez, pureza, moral, fidelidade, calma, nobreza, bondade, ausência de ira e cobiça, e outras virtudes semelhantes. Portanto, enquanto Asuddha-Pravritti e Asuddha-Nivritti, sendo impuras, devido à densa influência da motivação pessoal na execução ou abstenção da ação, nos conduzem à escravidão, à limitação e, finalmente, a nascimentos e mortes.  A Suddha-Pravritti e Suddha-Nivritti, sendo puras, devido á elevada influência da motivação impessoal na execução ou abstenção da ação, nos conduz finalmente à liberação dos compulsivos nascimentos e mortes.

(Gita-VIII-6) – A herança dos Virtuosos leva à Liberação (Moksha) das três qualidades (Gunas), enquanto que a dos Viciosos conduz à escravidão pelas Trigunas; não te preocupes, ó Pândava! nasceste com a herança dos Virtuosos.

Assim como Rajas e Tamas tendem à Asura-bhava, Satwa tende à Daiva-bhava. Assim como “Swartha” é a essência da Asura-bhava, “Sanyasa” e “Tyaga”, sendo a negação e o oposto de “Swartha”, constituem a essência da natureza angélica (Daiva-bhava). Sanyasa é a renúncia ao fruto ou resultado da ação necessária e legítima, seja na execução ou abstenção da mesma, segundo as circunstâncias. Tyaga é a renúncia ao fruto da ação necessária, com a devida dedicação à Divindade. “Nyata-Karma-phalatyaga ou Nyata-Karma-phalasangatyaga” ou, dito de outra maneira, “Karma-Phalasanga”, que significa o desapego ao fruto da ação legítima e a ausência da “karmya-karma-sankhalpa”, que é a ausência do desejo pela execução da ação com motivos pessoais, conduzem a “karma-purti”. Com o tempo, esse hábito dá ao aspirante “Naishkarmya-siddhi”.

(Gita-IV-12) – O aspirante, com constante discernimento, com Mente (Manas) disciplinada e desapaixonada, através da renúncia ao fruto da ação necessária, acerca-se ao supremo logro da Naishkarmya (Ação necessária, executada sem apego ao fruto e espiritualmente dedicada).

Devemos observar que na renúncia ao fruto da ação legítima, necessária e justa, a motivação do aspirante suddha-sankhya é perfeitamente impessoal.

 

A EXECUÇÃO OU ABSTENÇÃO DA AÇÃO DEVE SER IMPESSOAL, LEGÍTIMA, ESCRUPULOSA, JUSTA E NECESSÁRIA

Devemos notar que a ação pura (Suddha-Pravritti) não está constituída meramente pela execução impessoal da ação, sem a devida consideração à sua inerente natureza e necessidade. Assim também, a Suddha-Nivritti, ou correta abstenção na execução da ação, não está constituída, simplesmente, pela abstenção da execução impessoal da ação, sem a devida consideração à sua inerente natureza e necessidade.
O verdadeiro sinal da Suddha-Pravritti é que o ato a ser executado deve ser a necessária ação do dever legítimo e justo, (niyata-karma). A ação deve ser realizada com a melhor intenção e sem apego aos frutos.
Do mesmo modo, o verdadeiro sinal da Suddha-Nivritti é que a não execução se deve ao fato de que a ação é injusta, ilegítima e inescrupulosa (aniyata-karma ou nishiddha-karma). Por essa razão, a pessoa que se abstém de executá-la não deve ser afetada pelos resultados de tal omissão.
A atitude impessoal, quanto à execução ou não da ação sem apego aos frutos resultantes, com êxito ou fracasso, agradável ou desagradável, na realidade é alcançada pela constante prática de sanyasa e tyaga.

(Gita-XVIII-1) - Bhava ou Suddha Pravritti (correta ação ou ação necessária) não é constituída pela execução das ações ilícitas (Asat); Abhava ou Suddha-Nivritti (correta omissão ou cessação da atividade desnescessária) não é constituída pela ausência de execução dos atos legítimos (Sat). O significado filosófico de Bhava e Abhava foi devidamente exposto pelos Videntes (aqueles que têm visão sutil) dos Tatwas.

(Gita-XVIII-2) – Transcendendo o prazer e a dor, o lucro e a perda, a vitória e a derrota, prepara-te para a luta, para a reta ação no processo do mundo-Samsara; assim não serás escravizado pela dualidade.

(Gita-XXII-24) – Executa tu toda ação necessária; da execução da ação derivam-se excelências através do Karma ou reto trabalho realizado, sem apego a seu fruto (Naishkarmya); se não executares a ação desinteressada, o curso de tua vida, no evolucionário processo do mundo (Samsara) nunca será bem cumprido.

(Gita-XXVI-4) – O aspirante que busca a felicidade em Brahma-Samipya (Aproximação a Brahman ou Yadruccha), transcendendo os pares de opostos, isento de inveja, que não é afetado nem pelo êxito, nem pelo fracasso na execução das ações; não é atado por elas, nem mesmo quando as está executando.

A expressão “Niyata-Karma” deve ser entendida em função da natureza átmica, ou seja, “Swabhava”. Portanto, diz-se que a ação é “Swabhava-Niyatam-Karma”.

(Gita-XVI-3) – O Supremo Tat-Brahman é o Akshara (Atma), o Imperecível; Sua natureza é conhecida como Adhyatma. A manifestação, que constitui o processo evolutivo de todos os seres, no processo do mundo (Samsara), é considerada Karma ou reta ação.

(Gita-XXII-17) – A serenidade, o domínio dos Sentidos, a austeridade, a pureza, o perdão, a retidão, o conhecimento, o discernimento, e a fé em Brahman, constituem o Brahma-Karma, gerado pelo Atma no veículo prakrítico.

(Gita-XXVI-24) – A realização das ações feitas com átmico discernimento (Swadharma) transcende a influência trigúnica e supera as ações efetuadas sob a influência das Trigunas (Paradharma), ainda que estas sejam bem executadas. O aspirante que efetua ações com discernimento átmico, adaptadas à sua natureza prakrítica, não fica sujeito à escravidão delas, enredado em limitações.

O aspirante que efetua as ações com discernimento átmico, adaptado à sua prakrítica natureza, não se torna sujeito à escravidão da ação, envolvido pelas limitações.

A imunidade da escravidão das açõeschama-se Karma-bandha. O Atma ou Princípio de Vida é a Causa Remota da ação, e não como a Causa Imediata, que é promovida pela Prakriti.


YAGNA – DANA – TAPA

Entre as ações legítimas e necessárias (Niyata-Karma), dos aspirantes no caminho, estão: Yagna, Dana e Tapa.
Yagna: geralmente se entende como a invocação de ao Poder Superior com oferenda de sacrifício a Ele.
Dana: serviço impessoal a todos os seres; expressa o verdadeiro ato de caridade.
Tapa: é a austeridade das nossas três faculdades em equilibrada coordenação e com devota intenção. Tapa é descrita da seguinte maneira:
(Gita-IX-14) – A reverência aos Devas (Indra e outros), aos Iniciados, ao Guru e aos Videntes (aqueles que têm a visão sutil); assim como a limpeza, a retidão, a continência, e a total inofensividade devem ser entendidas como austeridade do corpo.

(Gita-IX-15) – A austeridade da Palavra deve ser entendida como linguagem inofensiva, verídica, doce e benéfica, bem como o estudo contínuo da Ciência Adhyátmica.

 (Gita-IX-16) – A austeridade da Mente consiste na serenidade, contentamento, calma, vigilância e pureza de intenção.

O Senhor aconselha, de forma clara, a execução deste tríplice dever e insiste na absoluta necessidade da correta e fervorosa execução dos mesmos, sem apego aos frutos ou resultados.

(Gita-XIX-12) – Yagna, Dana e Tapas não devem ser abandonadas, porém, deverão ser executadas adequadamente, posto que purificam os veículos do aspirante;

(Gita-XIX-13) – Estes atos necessitam ser executados de acordo com o Bhagavad Shastra, isto é, desapaixonadamente e sem aspirar a seu fruto. Ó Partha! esta é Minha suprema e absoluta Lei.

(Gita-XIX-14) – Em verdade, não executar os atos necessários é ilegítimo; o não cumprimento deles, devido à carência de discernimento átmico, é julgado como Tyaga Tamásica.

(Gita-XIX-15) – Tyaga é Rajásica, quando não se realiza a ação por causa das dificuldades pessoais, ou meramente por receio ao esforço físico, por isso não se alcança a excelência de Tyaga (renúncia ao fruto da ação, que deve ser dedicado à Divindade).

(Gita-XIX-16) – Ó Arjuna! é considerada Tyaga Sátwica a renúncia ao fruto da ação quando ela é executada porque deve ser realizada; sem predileções pessoais.

(Gita-XIX-17) – O verdadeiro renunciante ou Tyague, inspirado por Sátwica natureza, de iluminado Entendimento, e livre de toda dúvida, não deixa de executar as ações meramente porque estas são desagradáveis, nem tampouco as executa somente porque lhe são agradáveis.

(Gita-XIX-18) – A realização das ações nunca pode ser abandonada inteiramente; aquele que renuncia ao fruto de toda ação necessária é considerado um verdadeiro renunciante (Tyague).

(Gita-XIX-19) – Para aqueles que não são verdadeiros Tyagues, o fruto da ação é considerado tríplice; agradáveis, desagradáveis e de qualidade mista; nunca é assim para o verdadeiro Tyague.


A IMPORTÃNCIA DO FERVOR (SHRADDHA)

A necessidade do fervor (Shraddha) na execução da ação tem sido enfatizada pelo Senhor em termos firmes:

(Gita-IX-3) – Ó Bhárata! o fervor (Shraddha), ou ardor de todas as pessoas está em concordância com sua origem tátwica (Satwa, Rajas e Tamas). Toda pessoa possui ardor e revela sua natureza de acordo com a intensidade desse ardor.

    (Gita-XIV-26) – Entre todos os aspirantes ao Yoga, considero como um perfeito Yukta aquele que, inspirado com fervor puro (Shraddha), adora-Me com a Mente fixa em Mim.

(Gita-XXIII-1) – O aspirante, cuja Mente Emocional está absorta em Mim, com discernimento átmico, e sendo inspirado pelo fervor (Shraddha), é considerado por Mim como o primeiro entre os Yuktas (Aspirante avançado ou já liberado, sábio e puro).

    (Gita-XXIII-7) – “Oh Kaunteya! aqueles que, dotados com fervor puro, veneram a outros Deuses (Meus Aspectos), em verdade adoram a Mim, mesmo não estando de acordo com o Bhagavad Shastra”.

(Gita-XXIII-18) – Os aspirantes que seguem este conselho (Bhagavad-Dharma), virtuosos e dotados de fervor (Shraddha), considerando-Me como a Meta Final, são sempre muito amados por Mim.

    (Gita-XXIV-21) – O aspirante, com os Sentidos disciplinados, sendo devoto do   Princípio de Vida e inspirado pelo fervor (Shraddha), logra a sabedoria   sintética, com a qual alcança, sem demora, a Suprema Paz.

    (Gita-XXVI-8) – Os aspirantes, que estão constantemente de acordo com a Minha Lei (Suddha Dharma), inspirados pelo fervor átmico (Shraddha) e livres da desconfiança, são liberados da escravidão das ações.

    (Gita-XXVI-30) – Até aquele que escuta esse Ensinamento, com sinceridade e sem desconfiança, será liberado e alcançará os auspiciosos reinos dos Virtuosos.

Tudo o que se realiza sem o devido fervor (Shraddha) não tem valor e é um desperdício.

(Gita-IX-25) – Ó Partha! os atos de Yagna, Dana e Tapa, efetuados sem o necessário fervor(Shraddha), são denominados “Asat” (Indignos, sem méritos) e não dão frutos, nem agora, nem nunca.

    (Gita-XXIV-22) – Aquele sem conhecimento sintético e sem fervor (Shraddha), sendo perturbado pelas dúvidas, não tem êxito, retardando-se no processo do mundo (Samsara); também para aquele cuja Mente está sempre cheia de dúvidas, não há êxito ou felicidade aqui ou em qualquer outro plano.


O RECONHECIMENTO DA DIVINDADE COMO PRINCÍPIO ORIGINAL DO COSMO É ESSENCIAL PARA TODO TIPO DE AÇÃO

Para a realização da vida espiritual e para a Yoga é essencial que o aspirante se acostume à execução ou não execução dos atos, com um sincero reconhecimento da Divindade como o Princípio Original do Cosmo – “Sarvamula-Sanátana-Atma-Vastu-Swarupa-Vignanam”.

A execução ou omissão da ação realizada pelos aspirantes com este reconhecimento são chamados “Nyayya” (próprio, justo, devido) ou “Vidhipurvaka”.

    As ações que o aspirante executa sem esse fundamental reconhecimento denominam-se “Annyaya” (oposto, contrário, injusto) ou “Viparita” (falta de regra ou método) ou “Avidhipurvaka” (anterior).

    Esse ponto está claramente indicado no Gita, conforme indica a citação que segue:

(Gita-VI-3) – O corpo (Loka) como base; o aspirante através do conhecimento (gñana), como executor; os vários meios ou instrumentos indicados nos Shastras; as distintas e variadas formas de atuar (Pravritti, Nivritti e Yoga-Vyavasaya), e por último, a Quinta Causa, ou o Princípio de Vida (Atma).

O versículo seguinte, que versa sobre Nyayya, faz alusão aos atos executados em conformidade com seu devido reconhecimento.

(Gita-VI-4) – Qualquer ação física, mental ou intelectual (Vak) que uma pessoa execute, seja ou não com discernimento átmico, inclui estas cinco causas.

OS SANKHYAS SÃO GERALMENTE DE DOIS TIPOS

À luz das características da ação e da atitude do aspirante, conforme é exposto mais adiante, chegamos a uma classificação geral dos aspirantes, em relação à ação, como Kevala-Sankhyas e Suddha-Sankhyas. O termo Sankhya aplica-se à maioria de nós que funcionamos no mundo externo (tríplice samsara) e fazemos, durante esse funcionamento, o uso de três das nossas faculdades: Gnana, (conhecimento) Iccha (desejo) e Kriya (ação).

KEVALA-SANKHYAS

Os Kevala-Sankhyas não reconhecem a Divindade como o Princípio Original do Cosmo, pois são dominados pela influência das trigunas ou qualidades da matéria.

(Gita-IX-4) – Aqueles de natureza Sátwica adoram os Devas; os de natureza Rajásica são dados à veneração asúrica; enquanto os de natureza Tamásica, adoram imagens não consagradas e hostes de elementais.

    A maioria dos Kevala-Sankhyas realizam a adoração com a finalidade de obter favores, considerando somente o aspecto da Divindade que concede bênçãos ou impõe castigos. Seu compromisso na ação, ou na sua abstenção está manchada principalmente pela motivação pessoal (Swartha), algumas vezes muito sutil, muitas vezes de índole primária. Em outras palavras, sua Pravritti e sua Nivritti estão manchadas, portanto são asuddhas.

A classe dos Kevala-Sankhyas inclui a grande parte da humanidade, desde o estudante ilustrado, devoto e benfeitor, dedicado à Pravritti e à Nivritti legítimas, incluindo desde o aspirante sátwico, até o endurecido tirano maquinador, voluptuoso, oportunista, orgulhoso ou libertino, além dos intermediários entre cada um desses tipos extremos.

A classe dos Kevala-Sankhyas inclui também os que se dedicam a práticas e adorações objetivas e subjetivas, cruéis e grotescas, que invocam os siddhis (poderes suprafísicos), com a finalidade de acrescentar poder e posses para si mesmos.

Qualquer que seja a prática que professem, todos eles são anyadevata bhaktaha e sua adoração é conhecida como avidhipurvakam. Como regra, todos os Kevala-Sankhyas estão sujeitos à influência das dualidades, ou pares de opostos (dwanda-moha), tais como: prazer e dor, gosto e desgosto, censura e elogio, honra e desonra, bem e mal, etc. engendradas pelas trigunas: Satwa, Rajas e Tamas.

Eles são os Saktas (apegados) conformes o Gita. O sentido do egoismo ou ahamkara ainda persiste neles e a posse (parigraha) é uma necessidade para eles. Em geral, pode-se dizer que seu estado de existência ou bhava é principalmente asura-bhava, já que ainda não praticam Sanyasa e Thyaga. Portanto, ainda não estão capacitados para a cultura yóguica, por serem ayuktas (escravos).

Seus valores quanto às ações e aos homens são determinados pelas preferências pessoais e não se ajustam aos princípios autênticos e revelados nos Shastras (Ensinamentos Sagrados – Gita Cap. II, III e IV). Sua atitude é ashastra-vihitam. Diz-se que transgridem os shastras – shastra-vidhim-utsrijya.

Geralmente considera a Divindade de sua adoração como externa (fora dele mesmo). Relativamente aos Kevalas-Sankhyas o Senhor postula:

(Gita-VI-23) – Ó Bhárata! (Arjuna) nem todos os seres reconhecem-Me como a Causa de Tudo, por isso sua atividade, tanto objetiva (Pravritti) como subjetiva (Nivritti), estão obscurecidas pelas dualidades agradáveis e desagradáveis, ó Parantapa! (Arjuna).

    (Gita-XXI-21) – Ó Kaunteya! não deixes de fazer a ação necessária, ainda que seja manchada pelo desejo de seu fruto, pois todas as atividades estão assim manchadas, como a chama está pela fumaça. Desde que a ação seja necessária, mesmo que manchada pelo nosso egoísmo, é melhor realizá-la, do que se omitir dela.


SUDDHA-SANKHYAS

Dos Kevala-Sankhyas emergem os aspirantes sátwicos. Estes, superando gradualmente suas limitações, alcançam o nível dos Suddha-Sankhyas. Daí a referência à sua elevação nos seguintes termos: Urdhwam gacchanti sattwasthara – as pessoas de natureza Sátwica avançam para a eminência espiritual.
Por outro lado, a característica fundamental dos Suddhas-Sankhyas é o reconhecimento da Divindade como o Princípio Original do Cosmo.

(Gita-II-13) – Por Mim, esses quatro Aspectos formam um Todo; em Mim todos Eles permanecem; Eu Sou a origem do Universo; Sou o Onisciente!

(Gita-XII-7) – Ó Dhananjaya (Arjuna)! não existe absolutamente nada superior a Mim. Por Mim todos os Mundos estão interligados, como as muitas contas que integram um rosário.

(Gita-XIII-4) – Ó Arjuna! Eu Sou o Princípio, o Meio e a Consumação de toda a Criação; entre todas as ciências, Eu Sou a Ciência do Princípio de Vida (Yoga-Brahma-Vidya); Eu Sou o Tema Final de todo tratado espiritual.

(Gita-XVII-4) – Todo o Cosmo está compenetrado por Meu Ser Imanifestado; todos os seres estão contidos em Mim, porém Eu não sou limitado por eles.  

(Gita-XXV-15) – Ó Gudakesa! (Dominador do Sono). Eu Sou o Princípio de Vida no coração de todos os seres; Sou sua Origem, Meio e sua Culminação, (a Transcendente Meta: Brahma-Prâpti).

(Gita-XXV-23) – Ó Arjuna! o Supremo Senhor habita centralmente em todos os seres impulsionando-os por meio de Sua Shakti (Maya), à consumação na roda evolucionária (Samsara).

Os Suddha-Sankhyas consideram a Divindade de sua adoração como compenetrando tudo e também dentro deles mesmos. Eles executam suas ações à luz dessa convicção e concepção.
Esses reconhecimentos constituem uma necessidade indispensável da Doutrina Sagrada. A adoração dos Suddha-Sankhyas está de acordo com essa ideação. É claramente visível neles a ausência de motivação pessoal na execução (Pravritti) ou na abstenção (Nivritti) da ação. Seu funcionamento (Vyavasaya), através da execução ou abstenção da ação, é Suddha. Eles estão sempre plenamente conscientes da legitimidade, obediência e justa necessidade da ação ou da abstenção. Não existe neles o sentido do egoísmo (ahamkara), nem da possessão (aparigraha) e, ao funcionarem dessa forma, não são influenciados pelos pares de opostos. De fato, eles transcenderam a operação das Trigunas.

(Gita-VII-14) – Os aspirantes que consideram o Princípio de Vida como algo diverso da Matéria, que superaram o aspecto egoísta, que são versados na Ciência do Princípio de Vida, e executam as ações impessoalmente, liberados das dualidades que geram prazer e dor, e que, portanto, são conhecedores do Atma como a Causa de Tudo, alcançam a Imutável Morada.

Eles são os Asaktas (desapegados) segundo o Gita, também aludidos como Vidwan, Pandita, Shrishte, etc. e estão de acordo com o aforismo seguinte:

(Gita-XXII-20) – Teu dever consiste em executar somente as ações legítimas, sem jamais considerar seus frutos; não se apegar sequer ao fruto da ação justa, ou se deixar dominar pelo desejo de desistir da ação justa.

    (Gita-XVIII-9) – Ó Dhananjaya! renunciando a todo apego, executa todos os atos, necessários ou legítimos, com sintética compreensão, sem ser afetado nem pelo êxito, nem pelo fracasso. Tal transcendência sobre o fruto da ação constitui o Karma-Yoga.

    (Gita-XXIV-14) – O aspirante que possui discernimento átmico transcende as ações, tanto as agradáveis, como as de desagradáveis resultados; portanto disciplina-te no Karma-Yoga, posto que ele imprime excelência a todas as ações.

Seu Yagna é a invocação à Divindade como Princípio Original do Cosmo. Seu Tapa é relativo à Divindade. Seu Dana é a dedicação de seus atos, dos frutos destes, e de si mesmo à Divindade (Brahmanyatma Samarpanam).

(Gita-IX-23) – Portanto, os atos de Yagna (sacrifício), Dana (caridade ou doação), e Tapa (austeridade), realizados pelos aspirantes decididos a alcançar a Brahma-Prâpti (Realização), devem sempre começar com a entoação do Pranava OM, em dedicatória, como está indicado no Vidhi (Bhagavad-Shastra).

(Gita-XXII-22) – Os buscadores da Liberação executam diferentemente os variados atos de Yagna (Sacrifício), Dana (Caridade) e Tapa (Austeridade), dedicando os frutos destes a Brahman (Tat);

Eles seguem, não só na letra, mais também no espírito, o conselho do Senhor que diz:

(Gita-VIII-25) – Portanto o Bhagavad-Shastra é a autoridade que te indica quais ações deves realizar (Pravritti) e quais as que não deves praticar (Nivritti). Conhecendo a abalizada palavra do Shastra, estás apto para empenhar-te no processo do mundo (Samsara).

Os Suddhas Sankhyas conhecem perfeitamente as indicações dadas no Bhagavad Shastra, seu critério quanto ao necessário e ao desnecessário, ao correto e ao incorreto, ao bom e ao mau, ao mérito e ao demérito.
Sua atitude quanto aos gostos e aversões e sua escolha relativamente à ação são determinadas a partir do ponto de vista átmico (Kshetragna-dristi), sendo de natureza completamente impessoal. Em poucas palavras, sua tyajyopadeya (eleição entre o necessário e desnecessário) é Suddha, pois realizaram a síntese dos pares de opostos - Tyajyopadeya-samikaranam. O Suddha Sankhya, executando as ações dessa maneira, é liberado da escravidão da ação (Karma-bandha).

(Gita-XXIV-4) – O aspirante, desligado do fruto da ação, deleitando-se no Princípio de Vida, livre da trigúnica Prakriti, mesmo quando envolvido no trabalho, ao executá-lo, decerto, não fica atado por ele; Naishkarmya-Siddhi.

(Gita-XXIV-23) Sendo devotado ao Princípio de Vida por meio da dedicação dos frutos de todas as ações, sejam estes auspiciosos ou não, serás liberado de tua escravidão kármica; sendo assim liberado, tu Me alcançarás.

O Suddha Sankhya é sanyasta-sankalpa – aquele em quem toda paixão foi consumida e, é qualificado para a cultura yóguica. Enquanto o Kevala Sankhya, não havendo consumido todas suas paixões, não está qualificado para dita cultura.

(Gita-XIX-7) – Aquilo que os Videntes declaram ser Sannyasa (Karma-Sannyasa), sabe tu, ó Pândava! que é Yoga (Karma-Yoga); o aspirante que não houver abandonado a ideação pessoal e o egocentrismo, jamais poderá converter-se em um Karma-Yogue.

A natureza do Suddha Sankhya é Daiva Bhava e ele é rico em Sanyasa e Tyaga. O Suddha Sankhya começa a dar seus primeiros passos no caminho da Yoga, da seguinte maneira:

(Gita-XXII-7) Abandonando inteiramente todo desejo surgido de particulares ideações, e retirando os Sentidos (Gñanendriyas ou sentidos cognoscitivos), de tudo que o rodeia por meio da Mente;

Ele alcançou a tríplice síntese do conhecimento, do desejo e da ação. Esta tríplice síntese (Samikaranatrayam) lhe dá o correto discernimento do significado dos grandes aforismos: Mahavakyas - “Sarvam Tad Khalvidam Brahma” – “Sarvam Brahma Swabhavejam”. Tudo é Brahman. Tudo é da natureza de Brahman.


Num mundo perturbado pelas riquezas mal obtidas e pela paixão, são raros os Suddhas Sankhyas assim disciplinados que, sem vacilações, transitam pelo caminho que conduz ao longínquo Santuário.

 

A AÇÃO
OS ELEMENTOS DA AÇÃO
Gnana-Conhecimento; Iccha-Desejo; Karma-Ação


As ações são executadas por meio do poder de nossas faculdades, a saber: Conhecimento (Gnana), Desejo (Iccha), e Ação (Karma). A Síntese (Samahara) dessas três faculdades é executada por Dhriti, que é a quarta ou a Suprema faculdade em nós.
O Conhecimento ou a inteligência, ou ainda o poder de formar um juízo, incluindo suas múltiplas variações, tais como: a discriminação, a memória ou o poder de recordar, o discernimento, etc., constitui Gnana.
O Desejo, incluindo suas múltiplas variações, tais como: desejo, gostos, vontades, devoção, etc., em conjunto constituem Iccha.
A Atividade através dos órgãos dos sentidos, do conhecimento e da ação constitui Karma.
 São eles os três elementos que compreendem toda ação, e sua síntese constitui o ato em si.
Esses elementos acionam e reacionam entre si. Como se pode ver facilmente, um ou dois, dos três elementos, não podem, por si só, culminar em um ato completo.
Pode-se ver também que a natureza da ação é determinada pela natureza desses três elementos que a constituem. “Janati”, “Icchati”, “Yatate” e “Prapnoti” – “Conhecer”, “Desejar”, “Esforçar-se” e “Alcançar”, esta é a sequência comum.
O conhecimento da Meta, o desejo de alcançar a Meta e o esforço para alcançá-la, culminam no alcance da Meta.


SOBRE AS TRIGUNAS EM GERAL

Examinemos as trigunas, sua origem, a natureza do seu funcionamento, o efeito do referido funcionamento, o caráter efêmero do alcance obtido com sua ajuda, a necessidade de transcender seu funcionamento e os meios que facilitam sua transcendência. Podemos, também, observar o sinal do aspirante que transcendeu a influência das Trigunas.


AS GUNAS GERADAS NA PRAKRITTI

As Trigunas Satwa, Rajas e Tamas são geradas na Prakriti – exatamente na Gunamayi Prakriti.  A palavra “Prakriti no Gita refere-se-á, ao grupo da “Gunamayi Prakriti”.

(Gita-X-3) – Ó tu de grandes proezas, as qualidades Satwa, Rajas e Tamas, geradas pela Prakriti (Matéria - Gunamayi), impõem escravidão, pelo seu domínio, ao imortal Princípio de Vida que atua no corpo.

(Gita-XX-5) – Sabe tu que a Matéria (Prakriti) e o Princípio de Vida (Purusha) são sem princípio; sabe também que as mutáveis manifestações e as tríplices qualidades (Gunas) emanam da Matéria (Prakriti).


AS TRIGUNAS IMPÕEM ESCRAVIDÃO

As Trigunas essencialmente impõem escravidão aos homens. E nem a natureza angélica está livre de seu domínio.

(Gita-X-3) – Ó tu de grandes proezas! as qualidades Satwa, Rajas e Tamas, geradas pela Prakriti (Matéria - Gunamayi), impõem escravidão, pelo seu domínio, ao imortal Princípio de Vida que atua no corpo.

(Gita-X-19) – Não há nada sobre a terra, ou entre os Devas no Céu, que esteja totalmente livre da influência das Trigunas geradas pela Matéria (Prakriti).

(Gita-X-22) – As pessoas, cujo discernimento átmico foi obscurecido pelas três qualidades da Matéria (Prakriti), apegam-se ao fruto da ação no processo do mundo (funcionamento de Gñana - Conhecimento, Iccha - Desejo e Kriya - Atividade). Os Yogues, de perfeito conhecimento, não devem perturbar nem forçar tais pessoas de limitado e embotado entendimento.

A  ESCRAVIDÃO  IMPOSTA PELAS GUNAS ENTORPECE O DISCERNIMENTO ÁTMICO

Como resultado da sujeição à influência das trigunas, o aspirante esquece a imanência átmica e a glória que as transcendem:

(Gita-X-1) – Os aspirantes ocupados no processo do mundo (Samsara), que é dominado pelas três Gunas (Satwa, Rajas e Tamas), não descobrem como Eu as transcendo e permaneço imaculado.

RESULTADOS OBTIDOS MEDIANTE A AJUDA DAS TRIGUNAS

Temos visto pessoas que, sob a influência das Trigunas, sendo Kevala-Sankhyas ou simples materialistas e não reconhecendo a Divindade como Princípio Original do Cosmo, somente se dedicam a uma parte da Adoração:

(Gita-IX-4) – Aqueles de natureza Sátwica adoram os Devas; os de natureza Rajásica são dados à veneração asúrica; enquanto os de natureza Tamásica adoram imagens não consagradas e hostes de elementais.
Diz-se que sua adoração está em oposição ao “Vidhi” isto é, ao Shastra-Vidhi os métodos ou normas do Ensinamento Sagrado. O Shastra é o Bhagavad Shastra ou Suddha-Shastra.

(Gita-IX-1) – Ó Krishna! qual é a natureza da conduta daqueles que executam ações sem se guiar pelo Bhagavad-Shastra, mas que possuem um apropriado fervor, seja este Sátwico, Rajásico ou Tamásico?

A essa pergunta de Arjuna o Senhor responde:

(Gita-IX-5-6) – As pessoas de natureza orgulhosa e egoísta, que são impelidas por fortes e passionais gostos e desgostos, bem como quem pratica severas austeridades, contrárias aos mandamentos do Shastra, destituídas de discernimento espiritual, atormentam a constituição elemental do corpo, comportando-se de modo irreverente a Mim (Atma) que moro dentro dele; por isso, considera-se de convicções asúricas.

(Gita-VIII-24) – O aspirante que pratica ações motivadas por desejos pessoais, negligenciando os mandamentos do Shastra (Bhagavad ou Suddha-Shastra), não alcança a Visão da Beatitude Cósmica (Siddhi ou Vibhuti-Yoga), nem Sukha (Bênção do Conhecimento), nem a aproximação a Brahman (Brahma-Samipya).

(Gita-XXIII-7) Ó Kaunteya! aqueles que, dotados de fervor puro (Shraddha), veneram a outros Deuses (Aspectos Meus), em verdade adoram a Mim, mesmo não estando de acordo com o Bhagavad-Shastra.

Seu alcance, portanto, é muito limitado, não é do tipo Supremo:
(Gita-XV-13) – Os aspirantes devotados aos Devas (Aspectos Meus) a eles vão; e os que veneram os Manes, a eles chegam; os materialistas participam de empreendimentos materiais; ao passo que, aqueles que Me adoram como o Paramatma, chegam a Mim.

(Gita-XXVI-5) – Verdadeiramente o fruto da ação, obtido por aqueles de limitado entendimento, não é duradouro. Os adoradores dos Devas (Aspectos Meus) a eles vão; porém Meus adoradores chegam a Mim (Atma).


A NECESSIDADE DE TRANSCENDER AS TRIGUNAS

É muito fácil compreender a necessidade de transcender o funcionamento das Trigunas. Ao perguntar pelo modo dessa transcendência, Arjuna sente essa necessidade:

(Gita-VIII-1) – Ó Senhor! quais são as características que distinguem o aspirante que transcendeu as três qualidades (Satwa, Rajas e Tamas), qual é o seu método de disciplina, e como se consegue superar o domínio dessas três qualidades?

O Mandamento do Senhor é claro e imperativo:

(Gita-X-23) – Os Vedas estão repletos de exemplos pautados na busca de resultados materiais, através do esforço trigúnico, ó Arjuna! Não sejas trigúnico em teus esforços; sê firme no conhecimento átmico; transcende as dualidades; supera os meros interesses espirituais, como também os temporais.

O MODO DA TRANSCNDÊNCIA POR MEIO DA PRÁTICA DA DAIVA BHAVA E DA CULTURA YÓGUICA

Entre os fatores positivos que contribuem para o logro da transcendência estão as características da Daiva Bhava.

(Gita-VIII-2) – Esse aspirante se caracteriza pela ausência de temor, pela pureza de sua natureza, pela firme convicção na síntese de todo conhecimento, é caritativo (Dana), de Sentidos controlados, efetua oferendas com invocações (Yagna), dedica-se a estudos espirituais, pratica a austeridade (Tapas) e a retidão;

(Gita-VIII-3) – Não causa dano a ser algum, é verídico, livre de intenções vingativas, é dedicado, sempre sereno (Shanti), não se imiscui em insignificâncias, é compassivo com todos os seres, livre de cobiça, afável, humilde e constante.

(Gita-VIII-4) – É magnânimo, perdoa sempre, busca sempre a união, é puro, incapaz de enganar, e está acima de presunçosa vaidade. Estas são as qualidades que constituem a herança dos Virtuosos, ó Bhárata!

Além da necessidade de praticar as virtudes acima detalhadas, também se faz necessário buscar a Gnana-Yoga e à Tyaga, que é a essência da Karma-Yoga. A Bhakti-Yoga é também necessária na tarefa de superação das Trigunas e está exposta no Gita da seguinte maneira:

(Gita-X-24) – Aquele que é devotado a Mim (Brahma-Shakti) através da imaculada Bhakti-Yoga, superando a influência das Trigunas (Satwa, Rajas e Tamas), é digno de alcançar a Beatitude Brâhmica (Brahma – Prâpti).

A atitude sintética é característica do discípulo Suddha-Sankhya. Yoga é a transcendência de Gnana, Bhakti e Karma. Gnana é criada por Satwa e por isso Satwa há de ser também transcendida. A necessidade de transcender Rajas e Tamas é auto-evidente.

O modo de Cultura Yóguica geralmente é descrito da seguinte maneira:

(Gita-XI-2) – O aspirante que, havendo transcendido as dualidades de gosto e desgosto; com claro e unificado entendimento (Buddhi); dirigindo a Mente por meio de Dhriti (Yoga-Shakti ou Energia de Síntese), evitando as atrações dos Sentidos;

(Gita-XI-3) – Mantendo-se com apropriado regime alimentar; controlando a Linguagem, os Sentidos e a Mente Emocional; sempre desapaixonado; dedicando-se à prática meditativa;

(Gita-XI-4) – Sem egoísmo; não confiando na mera força física; despojando-se da arrogância, da paixão, da ira; sem possessões materiais; generoso e tranqüilo; tal aspirante é digno de alcançar a Beatitude Brâhmica.

(Gita-XI-5) O aspirante (Dehi), superando assim as Trigunas geradas no corpo; liberado dos males provenientes do nascimento, da velhice e da morte, alcança a Beatitude Brâhmica.

O resultado da transcendência acima mencionada, conduz finalmente a “amritatwa” e a “Brahma-bhava”.


O SINAL DA TRANSCENDÊNCIA SOBRE AS TRIGUNAS

Aqueles que transcenderam a ação das trigunas é descrito pelo Senhor como o que conhece os limites da ação e o domínio das Trigunas e, conhecendo-os, eleva-se acima de sua influência, a qual gera os pares de opostos (dwandwa).

6. Ó tu de grandes façanhas! o aspirante que entende, por meio dos Tatwas, a mútua relação entre Sankhya ou multiplicidade, e Yoga ou unidade, não se identifica com o fruto da ação, sabendo que as causas das ações se resolvem indubitavelmente em suas consequências.

(Gita-XIII-21) – Transcendendo a influência de Satwa (Prakasa), Rajas (Pravritti) e Tamas (Moha), o aspirante, ó Pândava! não repudia a execução do que lhe corresponde fazer como ato necessário, nem aceita o não cumprimento da inação necessária.

(Gita-XIII-22) – Aquele que permanece tranquilo, sem ser perturbado pelas tríplices qualidades; que está firmemente convencido de que estas qualidades atuam por si sós,

(Gita-XIII-23) – Sabendo que o prazer e a dor (de Manas-Tatwakuta) são da natureza de Brahman, centrado no Átma, reconhecendo na terra, na pedra ou no ouro a Essência Brâhmica Única, vendo-A igualmente no amigo e no inimigo, sendo de iluminado entendimento, compreendendo que a censura ou o elogio não atingem o Átma;

(Gita-XIII-24) – Aquele a quem não afeta a estima ou o desprezo, transcendendo as noções temporais de amizade e inimizade, dedicando todas as ações a Mim, transcende a influência das tríplices qualidades (Trigunas ou qualidades da Matéria, Satwa, Rajas e Tamas)


DETALHES DAS TRIGUNAS

 As trigunas, Satwa, Rajas e Tamas, geralmente operam conjuntamente, predominando uma sobre as outras. É rara a operação exclusiva de somente uma delas.
(Gita-X-8) – Ó Bhárata! a qualidade Sátwica predomina pela supremacia de Satwa sobre Rajas e Tamas; a qualidade Rajásica, pela supremacia de Rajas sobre Satwa e Tamas; enquanto que a qualidade Tamásica predomina quando Tamas impera sobre Satwa e Rajas.

Os três elementos ou constituintes dos atos são maculados pelas trigunas, que estão normalmente incorporadas na matéria de nosso corpo (dehasamudbhavan), elas influenciam, portanto, a natureza de nossos atos. Normalmente os atos estão, mais ou menos, dominados pelas tríplices propensões em graus variados, sendo eles Sátwicos, Rajásicos e Tamásicos, respectivamente, de acordo com o grau de preponderância de qualquer um deles sobre os outros dois. A operação das gunas é conjunta.

A faculdade cognitiva (Gnana) é iluminada pela influência de Satwa, de onde é possível perceber, através da erudição filosófica, a completa unidade no conjunto de seres; esse é um reconhecimento intelectual da Essência Unitiva no Cosmo. Por outro lado, os Rajásicos são muito influenciados, percebem somente a incoerência e separatividade na disposição do Cosmo. Os Tamásicos distorcem completamente a faculdade cognicitiva, porque sua margem de percepção é obscurecida, através da densa ignorância, engendrando confusão de pontos de vista.

Funcionam, quaisquer que sejam as proporções, direção e graduação, sem apreciação da relação e do racional dos acontecimentos no processo Cósmico e/ou em seu curso. Na faculdade da Mente Emocional, Satwa produz felicidade. Rajas a perturba violentamente conduzindo-a à paixão pelo domínio, gerando ira e cobiça, inveja e orgulho, crueldade e ódio, impaciência e rebelião, bem como outras emoções similares.

Tamas preenche a Mente Emocional de depressão, temor, dor, desalento, indiferença e perversidade de sentimentos. A faculdade dos sentidos é esclarecida e purificada por Satwa; é impulsionada à ação por Rajas; e é vítima da negligência, preguiça, inatividade e decepção, como resultado da influência de Tamas. Na realidade, a ação conjunta das Trigunas, geralmente produz os pares de opostos: afeto e aversão, prazer e dor, amizade e inimizade, e outros sentimentos semelhantes. Os pares de opostos produzem apego (Sanga), causando a sujeição às dualidades ou pares de opostos – “dwandwa-moha”. A maior consequência da “dwandwa-moha”, é a escravidão através da ação – “Karma-bandha”.

A necessidade de conhecer a essência ou os princípios fundamentais do Kshetra (corpo), que compreende os quatro Tatwakutas ou grupos de matéria, e do Kshetragna ou Princípio de Vida (Atma), é enfatizada da seguinte maneira:

(Gita-XXI-3) – Conhece-Me (Atma), ó Bhárata! como Kshetragna (o Onisciente Morador Interno) em todos os corpos; Minha afirmação é que o verdadeiro conhecimento é aquele que revela a natureza do Kshetra (Prakriti ou Matéria) e do Kshetragna (o Atma ou Princípio de Vida), e sua mútua interação.

A natureza de tal influência sobre os três Tatwakutas – Mahat, Manas e Indriya, que são, em nós, os centros respectivos das três faculdades ou poderes de ação, é cuidadosamente explicada na tabela seguinte:

 TATWAKUTAS

Dessa maneira, podemos ver que Tamas é o contrário e não a simples negação de Satwa e Rajas. Até mesmo Rajas aparece, em certo grau, equidistante das outras duas. A consequente associação de suas funções é descrita como a que naturalmente produz apego (sanga) e conduz à escravidão:

(Gita-X-4,5,6,7) – 4. Daí, ó Imaculado! a qualidade Sátwica, em virtude de sua pureza e de sua benéfica e reveladora natureza, une o Princípio de Vida ao samsárico conhecimento e à consequente felicidade.

5. Sabe tu, ó Bhárata! que a qualidade Rajásica é inerente ao desejo nascido dela e associado a contínuos anelos. Ó Kaunteya (Arjuna)! essa qualidade impele o Princípio de Vida à execução de atos que engendram apego a seus frutos.

6. Ó Bhárata! sabe tu que a qualidade Tamásica nasce da ignorância da ausência do discernimento átmico e desvia as pessoas, submetendo-as a estados de indiferença, irresponsabilidade, indolência ou inércia e sono excessivo.

7. Ó Bhárata! a qualidade Sátwica associa o Princípio de Vida com o prazer, a qualidade Rajásica com a execução de atos (e seus frutos), enquanto que a qualidade Tamásica obscurece o conhecimento com a indiferença e a negligência.

A condição resultante do predomínio de cada uma dessas três tendências, é descrita da seguinte maneira:

(Gita-XI-13,14,15) – 13. Quando a qualidade Sátwica é aumentada, chega-se a perceber que a luz do conhecimento espiritual flui por todos os centros de energia (chakras), do corpo (Kosha) do aspirante.

14. Ó tu, o primeiro dos Bháratas! quando a qualidade Rajásica predomina, a cobiça, objetividade, a mera iniciativa para a ação, impaciência e a ansiedade são geradas;

15. Ó descendente dos Kurus! quando a qualidade Tamásica prevalece, gera a ignorância, a ausência de discernimento átmico, a indolência, a negligência e a corrupção.

(Gita-X-20) – O conhecimento surge de Satwa; a cobiça, de Rajas; e de Tamas são originadas a despreocupação, a perversão, a ignorância e a ausência do discernimento átmico.

Nas citações anteriores, pode se ver que Gnana, Iccha e Karma, assim como o oposto de cada uma dessas funções, podem ser deduzidos das Trigunas.

 Podemos notar a influência das Trigunas sobre Gnana, Buddhi e Dhriti, nas ações em geral, e as características do ator ou executor, à medida que é influenciado por elas. Também podemos ver a natureza de “Sukha” (felicidade, alegria, etc.), gerada pelas influências das Trigunas e experimentada pelo ator assim influenciado.

Assim, através da influência Sátwica temos:

GNANA – Conhecimento
(Gita X-10) - Esse conhecimento é Sátwico, quando reconhece a constante Unidade, ou o Uno na multiplicidade dos seres manifestados.

BUDDHI – Discernimento
    (Gita-XI-7) – Esse entendimento, ó Partha! é Sátwico quando reconhece a necessidade de executar a legítima e justa ação, como também a de não executar as ilegítimas e errôneas, discernindo entre a escravidão engendrada pelo medo, e a liberação obtida por meio da coragem;

DHRITI – Poder unitivo ou de Síntese
    (Gita-XI-10) – Ó Partha! é Sátwico o Dhriti (Yoga-Shakti ou Energia de Síntese) que mantém a operação da Mente, do Intelecto e dos Sentidos em integral unificação;

Karma – A Ação
    (Gita-X-13) – É Sátwica a ação executada por ser necessária, sem desejo por seu fruto, desapegadamente, sem afeição nem aversão;

Yagna – Invocação
    (Gita-IX-11) – O Yagna (sacrifício) é de natureza Sátwica quando é feito de acordo com os ritos sacramentais, por alguém que não deseja fruto algum como recompensa, e considera sua execução como justa e necessária.

TAPAS – Austeridade
    (Gita- IX-17) – O ato de austeridade (Tapas), que deve ser praticado com intenso fervor pelas pessoas, é de tríplice natureza; quando Tapas é praticada por aqueles que estão desapegados de seu resultado, e que são Yuktas (Seres liberados), é reconhecida como Sátwica.

Dana – Dedicação
    (Gita-IX-20) – Uma doação (Dana) é reconhecida como Sátwica quando é realizada impessoalmente, ou seja, sem esperar retribuição, e com o devido discernimento quanto à oportunidade, ao lugar e à circunstância.

KARTA – O executor da ação, o aspirante
    (Gita-X-16) – É Sátwico o aspirante que é livre de apegos, isento de egoísmo, dotado de sintético discernimento, e de entusiasmo, e além disso, imperturbável diante do êxito ou do fracasso de suas ações.

SUKHA – Felicidade
    (Gita-XVIII-5) – É considerada como Sátwica a felicidade causada pela harmonização espiritual da Mente e do Intelecto que, com esforço, no princípio da prática, é amarga como fel, mas ao final, é doce como a ambrosia.

KARMA PHALA – Resultado da Ação
    (Gita-XVIII-3) – Os Videntes declaram que o resultado da ação impessoal é Sátwica, abençoada e iluminativa.

Através da influência de Rajas, temos:

GNANA – Conhecimento
    (Gita-X-11) – Reconhece como Rajásico o conhecimento que vê em todos os seres, a variante multiplicidade como permanente e desigual;

BUDDHI – Discernimento
    (Gita-XI-8) – Ó Partha! é Rajásico o entendimento que não reconhece corretamente o princípio de Dharma e Adharma (a Lei Eterna e sua violação), como também o que se deve e o que não se deve fazer.

DHRITI – Poder unitivo ou de Síntese
    (Gita-XI-11) – Ó Arjuna! é Rajásico o Dhriti pelo qual o aspirante, desejando intensamente o fruto da ação, anseia alcançar os objetivos de Dharma, Artha e Kâma;

KARMA – A Ação
    (Gita-X-14) – É Rajásica a ação executada com apego a seus frutos, egoisticamente e com violência;

YAGNA – Invocação
    (Gita-IX-12) – Ó tu, o melhor dos Bháratas! sabes que é Rajásico o Yagna efetuado com desejo pessoal por seus frutos, ou meramente para enaltecimento próprio.

TAPAS – Austeridade
    (Gita-IX-18) – O ato de austeridade que é praticado ostensivamente, com o propósito de obter reconhecimento, respeito e estima, é declarado Rajásico; e o resultado obtido dele, é transitório.

DANA – Dedicação
    (Gita-IX-21) –   As doações são reconhecidas como Rajásicas quando são feitas com o propósito de obter retribuição, com o desejo de conseguir benefícios, ou a contragosto.

KARTA – O Ator
    (Gita-X-17) – É Rajásico aquele que é apaixonado, desejoso do fruto de suas ações, cobiçoso, de natureza desumana, egoísta e dominado pelas dualidades da alegria e da dor.

SUKHA – Felicidade
    (Gita-XVIII-6) – A felicidade é considerada de natureza Rajásica quando, no começo da prática, é doce como o néctar, como resultado dos contatos dos Sentidos, mas, ao final, é amarga como o fel.

KARMA PHALA – Resultado da Ação
    (Gita-XVIII-3) – Os Videntes declaram que o efeito da ação Rajásica é a dor provocada pela dualidade.

    
Através da influência Tamásica, temos:

GNANA – Conhecimento
    (Gita-X-12) – É declarado Tamásico o conhecimento que julga o processo do mundo (Samsara) sem objetivo algum, sem nenhuma importância, limitado, e como tal, atado a frivolidades como se estas fossem tudo;

BUDDHI – Discernimento
    (Gita-XI-9) – Ó Partha! é de entendimento Tamásico aquele que, privado de discernimento átmico, considera obstinadamente o Adharma como Dharma, e todas as aspirações (Purushartas: Dharma, Artha, Kâma, Moksha e Prâpti) como vãs e ineficazes.

DHRITI – Poder unitivo ou de Síntese
    (Gita-XI-12) – Ó Partha! é Tamásico o Dhriti pelo qual o entendimento está continuamente influenciado pelo sono, medo, tristeza, desalento, e pela obscura natureza.

KARMA – A Ação
    (Gita-X-15) – É Tamásica a ação executada sem discernimento espiritual, sem se levar em conta o esforço necessário para realizá-la, e sem se preocupar com a natureza de seu resultado, ou seja, que causa danos e perdas ao mundo.

YAGNA – Invocação
    (Gita-IX-13) – O Yagna é considerado Tamásico quando realizado em desacordo com os devidos Sacramentos, ou seja, quando a oferenda não é dedicada, nem consagrada, nem efetuada com o necessário fervor (Shraddhá).

TAPA – Austeridade
    (Gita-IX-19) – O ato de austeridade efetuado sem motivo espiritual, por meio de mortificações físicas, ou com o propósito de ferir ou magoar a outros, é qualificado Tamásico.

DANA – Dedicação
    (Gita-IX-22) – A doação é considerada Tamásica quando é feita sem levar em conta devidamente o lugar, a oportunidade e a conveniência; de forma insultante, e sem conhecimento de suas consequências.

KARTA – O Ator
    (Gita-X-18) – É Tamásico aquele que não é harmonizado pelo Yoga, que é materialista, obstinado, ganancioso, mentiroso, indolente, desanimado e cultivador de prolongadas inimizades.

SUKHA – Felicidade
    (Gita-XVIII-7) – É considerada Tamásica a felicidade enganosa do começo ao fim, em consequência de excessivo sono, preguiça e desatenção, que obscurecem o conhecimento átmico.

KARMA PHALA – Fruto da Ação
    (Gita-XVIII-3) – “...e o resultado da ação Tamásica é a ignorância do conhecimento átmico”.

    O Shraddha (fervor), varia de acordo com a influência das Trigunas:

    (Gita-IX-2) –   Sabe tu que, em todas as pessoas que possuem um corpo de estrutura material (prakrítico), o fervor é tríplice: Sátwico, Rajásico ou Tamásico.

    De acordo com o que já foi dito, podemos notar que os aspirantes do tipo Sátwico são notavelmente adiantados, possuem um elevado código moral, suas normas são éticas, e ainda que tenham defeitos, suas aspirações contém as sementes do progresso. Seu próximo passo é a ascensão ao nível dos Suddha-Sankhyas. Os Aspirantes do tipo Sátwico se diferenciam dos outros (Rajásicos, que se estabilizam e Tamásico, que se deterioram) pelo esforço empreendido para ascender.

    (Gita-X-21) – As pessoas de natureza Sátwica avançam até a espiritualidade superior; as de natureza Rajásica vacilam no meio do caminho, enquanto que as de natureza Tamásica, ocupadas em obscuros propósitos, retardam-se na senda do processo do mundo (Samsara).

Assim sendo, compreende-se facilmente como Satwa tende à Daiva-bhava, enquanto que Rajas e Tamas tendem à Asura-bhava.

    Swartha ou motivação pessoal, como a causa básica de Asura-bhava, produzida por Rajas e Tamas; e a forma de curar tal tendência:

     Podemos expor aqui brevemente, como descreveu o Senhor, a origem da natureza obscura ou demoníaca (Asura-bhava) de maneira distinta da natureza luminosa ou angélica (Daiva-bhava). No capítulo oito, Swarupa Gita, são dados detalhes das características dos aspirantes que facilitam ou frustram seus esforços para a elevação espiritual. A Asura-bhava-asuri-sampat (natureza inferior humana) esta sintetizada no seguinte versículo:

    (Gita-VIII-5) – Ó Partha! o orgulho, a arrogância, a presunção, a cólera, a crueldade, como também a ignorância da existência do Princípio de Vida, caracterizam os que nascem com a herança dos viciosos ou egoístas.

Os seis vícios acima mencionados estão condensados na tríade:

    (Gita-VIII-22) – Tríplice é o portal, paixão, ira e cobiça, que conduz à obscuridade, uma vez que turva o discernimento átmico; por isso devem ser transcendidas.

(Gita-XIX-23) – A ira, como resultado do apaixonamento, que surge da qualidade Rajas, deve ser considerada como a mais destrutiva e perniciosa inimiga.

A ira (krodha) surge do desejo passional (kama); que por sua vez, é causado pelo apego (sanga).

(Gita-V-5) – O aspirante, atraído pelo que seus Sentidos objetivos captam, apega-se a ditas percepções; do apego nascem as paixões, e as paixões dão origem à ira.

A esfera de influência de kama, estende-se às nossas três faculdades.

(Gita-XIX-24) – Esse inimigo tem sua influência e campo de operação nos Sentidos (Gñanendriyas ou Sentidos Cognoscitivos), na Mente (Manas ou Mente-Emocional) e na Compreensão (Buddhi); por meio destes, o aspirante é confundido, e obscurece seu discernimento átmico.

O apego (Sanga), que é o progenitor do desejo passional (kama), é filho do egoísmo (Ahamkara). Portanto, o conselho do Senhor está dirigido para a transcendência do desejo passional (kama), que obstaculiza o progresso posto que perverte o dharma.

(Gita-V-26) – Conhecendo assim o Princípio de Vida (Atma, no Plano Avyakta) como transcendendo Buddhi (Intelecto), Manas (Mente) e Indriya (Sentido Cognoscitivo); disciplinando a Mente por meio de Buddhi e Dhriti, ó tu de grandes proezas! vence o adversário que se apresenta como perversa paixão, difícil de superar.

A forma de vencer o desejo passional (kama), é através do controle e disciplina eficazes, de motivação impessoal, sublimando a função das três faculdades (Mahat, Manas e Indriyas – Conhecimento, Desejo e Ação), para assim obter, em seu devido tempo, a liberação do seu domínio.

(Gita-XIX-25) – Ó tu, o melhor dos Bháratas! como verdadeiro primeiro passo, dirigindo espiritualmente os Sentidos (Gñanendriyas ou Sentidos Cognoscitivos), transcende o apaixonamento que obstrui todo Discernimento e Compreensão.

Quando o desejo passional (kama) é oposto ao reto funcionamento (Dharma), surge o ego (Ahamkara) e deste nasce o egoísmo (swartha). O egoísmo (swartha) gera os pares de opostos, os quais devem ser transcendidos.

(Gita-XIX-20) – As dualidades de atração (gosto) e aversão (desgosto) residem nos Sentidos (Gñanendriyas ou Sentidos Cognoscitivos), e na mente (Manas ou Mente Emocional) através do contato com os objetos que os impressionam; o aspirante não deve ceder à sua influência; ambas confundem sua visão da Senda ao executar a ação.

O princípio do egoísmo (Ahamkara) cria o sentido de separatividade, do sentido de separatividade surge a motivação pessoal em toda execução ou abstenção da ação. Portanto, o Ahamkara é o sinal predominante da natureza obscura (asura-bhava). Anahamkara cria a motivação impessoal, e é o sinal ou característica predominante da natureza angélica (Daiva-bhava), produtoras dos Satwas. O Ahamkara engana o aspirante levando-o a crer que o Atma ou Princípio de Vida é a causa remota ou distante (Sadharanakarana), portanto o ahamkara escraviza. O princípio do inegoísmo (Anahamkara) atua de maneira oposta, promovendo a síntese, e não a separatividade.

    (Gita-XXI-10) – O aspirante, cujo discernimento átmico está obscurecido pelo egoísmo, considera o Princípio de Vida como a Causa direta ou imediata de todas as ações; porém elas são, em realidade, causadas pelas tríplices qualidades da Matéria ou Gunas.

(Gita-VI-7) – Aquele que possui natureza ou Mente livre de egoísmo, cujo conhecimento é discernente, ainda que funcionando neste Tríplice - Samsara (Mahat, Manas e Indriya) ou processo do mundo, atuando como se nada fizesse, não fica atado por suas ações (Naishkarmya ou desapego ao fruto da ação).

(Gita-VI-25) – Quando o Vidente (aquele de visão sutil) Me vê como a Causa de Tudo, percebe que só as Gunas (Qualidade da Matéria) são a causa próxima de toda ação, e reconhece-Me como Aquele que está além das Gunas, compreende Minha Transcendência (Kaivalya ou Atma-Bhava).

(Gita-XXII-2) – O aspirante que reconhece que todas as ações são efetuadas por meio da atividade inerente à Prakriti, compreende, consequentemente, que o Princípio de Vida não é o executor, sendo somente a Causa remota da ação.

O Kevala-Sankhya e o Suddha-Sankhya podem ser diferenciados, em termos gerais, como afetados e não afetados, respectivamente, pelo egoísmo (ahamkara), relacionado com o Jagat-Vyavasaya. O Suddha-Sankhya reconhece que o Atma ou Princípio de Vida é a causa remota de todas as ações, e não é afetado pelo seu funcionamento. Na química da ação, se nos permite tal expressão, o Princípio de Vida pode ser descrito como o agente catalisador (Aquele que modifica o meio em que atua, sem ser alterado de forma alguma). Normalmente, nosso Jagat-Vyavasaya está na Gunamayi-Prakriti e nela vivemos escravizados pela Gunamayi-Shakti. O Suddha-Sankhya, entretanto, funciona no Jagat-Vyavasaya mas não é escravizado pela Gunamayi-Shakti, sendo um Gunatita. Ele se esforça para servir, pois sua aspiração é o bem-estar do mundo, sem nenhum interesse pessoal.

(Gita-XXII-21) – Janaka e outros Seres tornaram-se Adeptos de Naishkarmya somente pela execução desinteressada da ação necessária; reconhecendo assim, deves trabalhar pela prosperidade do mundo, e desse modo também lograrás êxito em tua evolução.

(Gita-XXIV-8) – Ó Bhárata! o Gñana-Yogue de iluminado entendimento deve, tendo em vista o bem-estar do mundo, executar as ações desapaixonadamente, porém tão intensamente quanto aqueles que sem discernimento espiritual executam atos intensamente apegados a seus frutos.

O YOGUE

O funcionamento do Yogue no tríplice samsara é, em verdade, maravilhoso. Muito mais avançado que o Suddha-Sankhya, ele vai pelo mundo fomentando conhecimento.

(Gita-XVII-7) – O Yukta, Aspirante de grau avançado, conhecendo os Tatwas, convence-se de que o Atma não realiza nenhuma ação, tais como: ver, ouvir, tatear, cheirar, comer, mover-se, dormir, respirar;

(Gita-XVII-8) – Falar, soltar, segurar, trabalhar e repousar; compreendendo que são os Sentidos e os objetos dos Sentidos que atuam entre si, interagindo uns sobre os outros.

O Yogue, ao funcionar dessa maneira, a Luz Divina brilha mais, iluminando as obscuras regiões do mundo. Afável, caridoso e Santo, ajuda sempre a humanidade curando suas feridas. Ele se rende totalmente ao Senhor e serve de meio ou canal para receber e distribuir Sua Graça e bons auspícios. Diz-se que o Yogue sintetizou a Pravritti e a Nivritti, com respeito ao Princípio de Vida ou Atma, isto é, ele reconhece que a virtude (Punya) e o pecado (Papa) não tocam e nem pertencem ao Atma. Também reconhece que as três faculdades Gnana, Iccha e Kriya não atacam o Atma, permanecendo o Princípio de Vida independente delas. Portanto seu pensamento é:

TUDO É DA NATUREZA DE BRAHMAN

Assim, alcança-se a dupla síntese-samikaranatdwayam. Como Suddha-Sankhya, alcança-se a tríplice Síntese-samikaranatrayam.


OS AVATARA – PURUSHAS E O PARAMATMA

Os Avatara-Purushas e o Paramatma também estão ocupados no funcionamento do mundo (Jagat-Vyavasaya), porém o funcionamento deles é marcadamente diferente do que temos considerado até agora. Ambos estão acima da ação da Gunamayi-Prakriti e da Gunamayi-Shakti. Ainda que as trigunas sejam uma parte do grande plano, nem os Avatara-Purushas e nem o Paramatma estão submetidos a sua ação. Diz o Senhor graciosamente:

(Gita-XII-9) – Sabe tu também, que esses Princípios (a manifestação óctupla do universo) e seu funcionamento, sejam Sátwicos, Rajásicos ou Tamásicos, emanam de Mim, e que Eu não estou limitado por eles, porém eles permanecem em Mim;

No Jagat-vyavasaya, o Senhor declara que o desejo (Kama) que não está em oposição ao Dharma é uma de suas excelências (vibhuti).

(Gita-XII-10) – Sou a coragem no poderoso que está livre de paixões e apegos, ó tu, o primeiro dos Bháratas! Em todos os seres Eu Sou o desejo que nunca é incompatível com o Dharma;

Os Avatara-Purushas têm sua missão e mensagem descrita plenamente no Avatara-Gita. As principais passagens são as que se seguem:

(Gita-III-13) – Sempre que, ó Bhárata! (Arjuna) decai a retidão (Sanátana Dharma) e sobrevém a preponderância da injustiça (Adharma), manifesto-Me como um Siddha, para ensinar o verdadeiro Conhecimento do Sanátana Dharma. (A Eterna Lei).

(Gita-III-14) – Para a proteção dos justos, para a transmutação da injustiça (Adharma) em justiça (Dharma), e para o estabelecimento do Sanátana Dharma, manifesto-Me em perfeitas e benéficas Encarnações, para ajustar ou atualizar o Dharma às necessidades dos tempos.

Os Avatara-Purushas funcionam com a Esha-Prakriti e a Shakti que utilizam é a Esha-Shakti. O Jagat-vyavasaya do Paramatma consiste na criação e proteção do Cosmo ou Jagat, e a Prakriti que lhe pertence é a Daivi-Prakriti, e portanto a Shakti é a Daivi-Shakti (Sanátana Dharma).

(Gita-VI-12) – Por meio de Minha Prakriti (Daivi-Prakriti), Eu Sou a Causa que manifesta, de tempos em tempos, a múltipla criação que está sujeita à influência da Triguna-Prakriti.

(Gita-XV-6) – Diferente dos dois primeiros, o Paramatma é o terceiro e mais elevado fator, que por compenetrar o tríplice Samsara (Gñana, Iccha e Kriya), sustenta-o, sendo Ele mesmo o Supremo Soberano Indestrutível.

É nesse aspecto que os Mahatmas, os mais eminentes entre os Yogues, O adoram.

(Gita-III-22) – Em verdade, ó Partha! os Mahatmas (Aspirantes da mais elevada ordem), estabelecendo contato com o plano da Daivi-Prakriti (a forma mais sutil da Matéria manifestada), adoram-Me (Paramatma) com todo o coração, conhecendo-Me como o Eterno e a Origem de todo o Cosmo.

As três Shaktis que operam no Jagat, estão mencionadas no seguinte versículo:

(Gita-X-2) – Minha Shakti (Maya), governando o processo do mundo (Samsara) é difícil de ser sobrepujada. Aqueles que se rendem a Mim (Ma, Brahma-Shakti ou Shakti da Síntese) transcendem a influência da tríplice Shakti (Daivi, Esha e Gunamayi).

Dessa maneira, aqueles que se entregam a MA, que é a Brahma-Shakti, transcendem o Jagat-vyavasaya e participam da experiência do contato com o Suddha-Brahma.
A natureza do Suddha-Brahma, até onde podem as palavras tentar sua explicação, as disciplinas que conduzem ao Suddha-Brahma e as características dos aspirantes que anseiam tal contato, são tratados brevemente nas seções seguintes.


A HIERARQUIA

Os grandes Hierarcas também estão ocupados no funcionamento do mundo (Jagat-vyavasaya). No Gita, eles são mencionados como os Sete Anciãos ou Rishis-Maharsyaha Saptapurve.

(Gita-IV-6) - “Os Sete Antigos Rishis, como também os Quatro Manus, os Madbhavas, os Manasas e os Jathas têm a Seu cargo a supervisão de todos os seres”.

Sua principal função é levar adiante a vontade Divina no processo do Jagat-vyavasaya; com frequência, Eles nascem e cooperam com os Avatara-Purushas. Para tal cooperação, Eles podem aparecer antes dos Grandes Adventos ou depois, dando continuidade a esses trabalhos. A principal missão da Hierarquia compreende a preparação para o grande Advento e a continuação de Sua obra. A Hierarquia, junto com outras funções de governo e ensinamentos, deve sua inspiração à leitura do arquivo akhásico, onde a Sabedoria Antiga, Sanátana-Dharma, fora explicada pelos Grandes Adventos, ocorridos de tempos em tempos, os quais automaticamente ficam impressos na tabela akhásica.
Até aqui, descrevemos a forma pela qual se conduzem os Sankhyas e os Yogues no Jagat ou Tríplice Samsara. Não obstante, não se faz menção àqueles que não crêem na origem e governo Divino do Cosmo. Eles são os chamados Ateus ou Nireeswara-Sankhyas, os quais devem esperar a hora da iluminação. Entretanto todos eles desempenham suas funções no Jagat.

 

SESHWARA   SANKHYAS

 SESHWARA

Com relação ao Funcionamento do Mundo ou Jagat-vyavasaya, os termos Pravritti e Nivritti significam respectivamente execução e abstenção da ação. Com relação ao Upasana, Pravritti e Nivritti conotam, respectivamente, práticas que têm relação com a realização objetiva e subjetiva. O leitor deve recordar bem esta diferença de significado na aplicação destes dois termos.
Além de se ocuparem fisicamente com a ação, com Yagna e com  Dana, os Suddha-Sankhyas e os Kevala-Sankhyas ocupam-se, em práticas subjetivas tais como Tapas e Meditação. Essas práticas geralmente estão incluídas nas Upasanas. As Upasanas de cada grupo são privativas em caráter e motivos. Por um lado, os Suddha-Sankhyas, purificados que estão por Samnyasa e Tyaga, portanto com sua faculdade yóguica colocada em atividade, por meio das Upasanas: saguna e nirguna, adquirem poderes, tanto físicos quanto superfísicos ou ocultos, que são utilizados para o bem-estar do Mundo ou Jagat-Lokasangraha. Por outro lado, os Kevala-Sankhyas, não purificados pela benéfica influência de Samnyasa e Tyaga, e portanto incapazes de pôr em atividade a faculdade yóguica, com frequência, recorrem a severas e grotescas práticas subjetivas e meditativas, completamente contrárias aos Ensinamentos Sagrados – Bhagavat Shastras; por isso são capazes de invocar os mais baixos e limitados aspectos da Divindade. Com essas práticas, também adquirem poderes físicos e superfísicos ou ocultos, de categoria e caráter muito inferiores, que são usados somente para o avanço pessoal, agressão e a auto-gratificação.
A seguinte Tabela poderá ajudar ao leitor a compreender melhor a variada relação dos Kevala e dos Suddha-Sankhyas, com o Jagat-vyavasaya.

JAGAT

Ler 3146 vezes Última modificação em Domingo, 12 Julho 2015 17:36