Mitra Deva: o Avatar Proclamador da Civilização da Síntese

Quinta, 02 Agosto 2012 14:37 | Escrito por 
Representação de Mitradeva, de autoria de Sri Vayera. Representação de Mitradeva, de autoria de Sri Vayera.

A inauguração do núcleo central do Śuddha Sabhā Ātma, na Fazenda Mãe Natureza, prevista para o próximo dia 31 de agosto, estimula a reflexão, no seio da Universidade do Coração, em torno do ideal de promover o florescimento da nova civilização da síntese, descrita em Mitra Deva o Siddhavatar Proclamador da Civilização da Síntese (Aracaju: Ecos da Síntese, 2009).


A via de realização da essência do sagrado em nosso coração implica em se viver de forma coerente com o que se pensa e acredita. Nascemos em mistério, vivemos em mistério e morremos em mistério (Huston Smith). E, no entanto, semeamos o nosso próprio destino. Semeamos as nossas ações em nossos pensamentos; os hábitos, em nossos atos; o caráter, nos hábitos; e o destino, no caráter (Marion Lawense). Daí se afirmar que quem não vive como pensa, acaba pensando como vive (Paul Bourget), afastando-se, portanto, do sagrado que reside no coração.

Durante a nossa trajetória espiritual deparamo-nos com toda a sorte de material de estudo, desde textos que podem ser considerados como "Escrituras Sagradas", como a Bíblia e a Bhagavad Gītā, até aqueles outros mais obscuros e que não sabemos como classificar. Estes textos estão por toda a parte, mas, ao mesmo tempo, não são fáceis de encontrar. Às vezes nos chegam por um amigo, outras vezes os encontramos em bibliotecas quase inacessíveis ao público, ou ainda os recebemos de nossos "seniors", instrutores, etc. Esses são, geral, enigmáticos, de pequena ou quase nenhuma circulação e, numa primeira leitura, parecem sem sentido. Entretanto, por vezes, escondem verdadeiras chaves de interpretação sobre a teoria e a prática de certos conceitos e preceitos.

O livro Mitra Deva o Siddhavatar Proclamador da Civilização da Síntese situa-se nesse grupo de textos "estranhos", mas que nos remetem a uma nova compreensão das Escrituras e do sagrado. De início, a sua Introdução sugere que a Bhagavad Gītā representa a exposição de um notável método de reflexão sobre a essência (śuddha) do sagrado (dharma). A premissa básica da Gītā, sem a qual o seu argumento não se sustentaria, seria o pressuposto da presença do sagrado em nossos próprios corações. Seria esta a revelação e experiência que Krishna traria a Arjuna, cujo primeiro passo fora reconhecer que, apesar de todos os seus estudos védicos, estava ali, impotente, porque nada sabia sobre a verdadeira essência do dharma. Arjuna ouve de Krishna que o verdadeiro e puro dharma reside no imo do coração, totalmente fora do alcance dos nossos princípios intelectivos, marcadamente dogmáticos e dualistas. Para que a essência do sagrado se manifeste no coração de Arjuna, Krishna pede-lhe que se esvazie dos seus velhos princípios e conceitos védicos e se entregue unicamente à verdade daquela relação ali estabelecida, onde estava se processando a Nova Revelação do antigo e eterno (sanātana) dharma. Arjuna experimenta, então, na exata medida em que realiza a entrega de si mesmo ao divino, essa nova realidade.

A Introdução do livro Mitra Deva o Siddhavatar Proclamador da Civilização da Síntese esclarece que, embora a Gītā descreva o processo de convergência para o sagrado coração, o próprio Krishna adverte que o mero conhecimento teórico desta verdade não é suficiente para alcançá-la. O caminho de realização implicaria na vivência prática dos estados de renúncia (saṃnyāsa) e entrega (tyāga) discutidos na Gītā. Ou seja, a Gītā não trataria de um conhecimento exterior e independente do sujeito. Pelo contrário, trataria desse compromisso do sujeito com a divindade em sua esfera mais interna – interna ao próprio sujeito. A partir daí a ação objetiva, realizada no mundo, estaria já sacralizada por este mesmo compromisso interior. Embora o termo "Avatāra" (aquele que desce) não ocorra diretamente na Gītā, é o próprio Krishna quem sugere a existência de distintos Avatāras, quando ele mesmo afirma ter descido (o substantivo "avatāra" se forma a partir do verbo sânscrito que significa "descer") a este mundo para atualizar o entendimento do eterno e puro dharma, que todos já trazemos em nossos corações, como filhos de Deus que somos. A Introdução antecipa, por fim, o tema dos demais capítulos do livro, que tratam de datas e fatos que não podem ser comprovados pela história e sua moderna ciência arqueológica.

A questão então é: como devemos lidar com esse material e os seus autores, na medida em que eles se relacionam com a temática da Bhagavad Gītā? O processo de transmissão de ensinamentos envolve, em certa medida, um pouco daquilo que costumamos chamar de fé. Então, embora certo comentário ou artigo possa, à primeira vista, parecer obscuro e sem sentido, podemos lhe dar um crédito extra, dedicando a ele mais estudo e pesquisa, dependendo de quem o recomendou – um especialista no assunto, um líder religioso, etc. No caso em questão, os sete artigos que compõem o livro procuram estabelecer uma relação entre o śuddha dharma, proclamado por Krishna, com a teoria dos Avatāras e com o próprio advento do Messias Prometido, a quem se atribui a missão de unificar os distintos dharmas do oriente e do ocidente.

O primeiro artigo desta seleção, escrito em 1923 pelo erudito indiano Sri R. Krishnaswami Row, afirma que as pessoas têm um entendimento precário, impuro (aśuddha) da Gītā e que a essência pura (śuddha) da Gītā encontrar-se-ia quase que perdida no mundo. Usa este argumento para falar da vinda do novo Avatāra, que teria nascido entre nós em 1919. O segundo texto, escrito por Sri Vayera Yogi Dasa, provavelmente nos anos setenta, também fala do novo Avatāra. Sri Vayera relaciona o advento de Mitradeva com as referências no Chandogya Upanishade ao Cristo planetário, ou Narāyaṇa, oriundo de Sukra (Vênus). Cita também Blavatsky e a menção que faz a Narāyaṇa na Doutrina Secreta, vol. I, Estância VI, versículo 7.

Os dois textos seguintes foram escritos, respectivamente, por Sri Subramanya Iyer, erudito da Sociedade Teosófica, incumbido de promover e difundir o śuddha dharma pelo mundo, e Sri T. M. Janárdanam, a quem, anos mais tarde, seria transmitida essa mesma missão. Ambos fazem menção ao nascimento de Mitradeva, no plano físico, como a um fato real que teria ocorrido na Índia, nas imediações de Puna (Pune), distrito de Maharastra. É especialmente interessante a explicação presente no texto de Janárdanam de como o rearranjo dos versos da Gītā, em vinte e seis capítulos, conforme a versão extraída do magistral Comentário de Haṃsa Yogi, deixa explícita a doutrina dos Avatāras. Os Avatāras em forma de Rishis enfatizaram a via da ação; os Avatāras em forma de Siddhas enfatizaram a via do conhecimento, ou da não-ação; enquanto os Avatāras da síntese destas duas vias tomam a forma de Yogeshvara, sendo o seu principal representante o Senhor Krishna. A Gītā representaria, portanto, um momento de síntese das vias da ação e da não-ação, as quais não seriam mutuamente excludentes, conforme se defendia até então. A partir deste ponto o autor arrisca classificar Mitra Deva na classe dos Siddha-Avatāras, mas o texto torna-se um tanto obscuro.

O quinto texto é de Sri Vayera Yogi Dasa e consta de orientações básicas para a instalação dos núcleos avançados (Śuddha Sabhās), destinados a estimular o despertar da consciência átmica, ou consciência da presença do sagrado em si mesmo. O sexto texto é do editor desta coletânea, Surya Yogi Dasa, e deve ter sido escrito há mais de vinte anos, pois há muito a sua disciplina não lhe permite escrever. Este texto retrata tanto a trajetória do instrutor da Grande Síntese como a dos próprios projetos que esta desenvolve. O texto final da série é, na verdade, o fruto de um estudo em grupo, realizado pelos membros da Grande Síntese, em torno do mantra e do yantra de Mitradeva. Vê-se aqui a presença invisível do instrutor, orientando os grupos a se autorregularem, de acordo com a compreensão que já demonstram possuir do śuddha dharma.

Para além da dimensão histórica, o livro, respeitosamente, incorpora o mito e a linguagem simbólica, deixando as paráfrases fluírem e se organizarem para falarem por si sós. O respeito é ao sagrado, que se manifesta no discurso do misterioso nascimento de um ser divino e do seu papel e função. O texto avança, em suma, dos primeiros e rudimentares escritos sobre a vinda do Avatāra, para uma visão amadurecida, que reconhece a função do novo Avatāra, não simplesmente em um corpo físico de uma criança indiana, mas de uma inteligência, força e energia, cuja atuação já se faz presente a partir do plano sutil.

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