Satyavacana – um dos Pilares da Universidade do Coração

Sábado, 11 Agosto 2012 12:22 | Escrito por 
São Tomás de Aquino, um dos principais teóricos das teorias da verdade no ocidente. São Tomás de Aquino, um dos principais teóricos das teorias da verdade no ocidente.

São quatro os pilares fundamentais sobre os quais se está construindo a Universidade do Coração. Os dois primeiros, Ahiṃsā (não causar dano a nenhum ser vivente) e Satyavacana (Veracidade, pronuncia-se "satia-vachana"), abrem as vias do coração. Os outros dois pilares, Lokakaiṅkarya (o serviço impessoal a todos os seres) e Dhyāna (meditação) pavimentam estas vias que conduzem ao coração, harmonizando a nossa atividade no mundo. Os falsos dogmas são aliados de moha (ilusão), a fascinação pessoal, e representam o maior e o mais persistente obstáculo para uma vida dedicada a não violência (Ahiṃsā) e à veracidade (Satyavacana).Satyavacana expressa aquilo no qual os demais pilares se resumem e que pode ser posto em termos da compreensão plena de que de nada adianta enganar a si mesmo, pois não existe outra via de realização senão aquela que nos conduz a consultar a verdade em nosso próprio coração.


O coração, assento dos afetos, cria nós que dificultam a análise íntima e impedem a realização.  Para contemplar a verdade no âmago do coração temos que aprender a identificar o falso e a desenvolver coragem para nos conduzir a veracidade. Vejamos algumas expressões ocidentais de Satyavacana ao longo da história.

No período medieval a Igreja se via como a representante única da filosofia.  A Igreja não admitia, por exemplo, os textos de Galileu (1564-1642), uma vez que este aceitava a teoria científica de Copérnico (1473-1543) de que a Terra girava em torno do sol.  Para a Igreja, a relação entre a fé cristã e a razão (fides et ratio) era aquela discutida na Ratio Studiorum, o método pedagógico fundado em Agostinho (354–430), Anselmo (??- 805) e Tomás de Aquino (1225 – 1274) e que define a fé cristã como o pressuposto da razão – fides quaerens intellectum. Esta formulação praticamente define a questão da verdade no período medieval, representando o principal paradigma deste período.

O período moderno inaugura-se com o Discurso do Método (Discours de la méthode pour bien conduire sa raison, et chercher la verité dans les sciences – 1637) e as Meditações Metafísicas (Meditationes de prima philosophia – 1641) de Descartes (1596 – 1650), quando este formula a expressão cogito ergo sum (penso; logo, existo), que decorre do método de duvidar de tudo, inclusive dos dogmas da fé cristã, e que representou um caminho “alternativo” em relação àquele defendido pela Igreja.  É o exercício metódico da dúvida quase herética que conduz Descartes à formulação de uma verdade irrefutável – a sua primeira certeza sensível – “penso, logo, existo”. Com Descartes o ocidente dá um primeiro passo em direção a Satyavacana.

Diz-se que a consciência individual inaugura-se no ocidente com Descartes porque Descartes não tem por princípio metodológico qualquer dogma de fé.  Parte simplesmente do bom-senso e do direito que as pessoas de boa consciência têm de duvidar de tudo que pode ser ilusório.  Em Descartes, a dúvida, que no período medieval era prova de heresia, torna-se um recurso metodológico para a libertação das falsas crenças. A certeza, ou convicção interior, expressa pelo cogito cartesiano, nasce, então, da dúvida, como a expressão de uma espécie de fé, ou seja, de fé em si mesmo.  Assim entendida, a fé cartesiana não difere, inclusive, daquela certeza interior que teriam experimentado Copérnico e Galileu, quando estes ousaram duvidar radicalmente do dogma vigente e afirmar que a Terra girava.

A doutrina da iluminação da razão a partir de um poder de caráter transcendente orienta toda a filosofia ocidental. E durante o período medieval há todo um contexto em que a doutrina da iluminação estabelece-se como solução para o problema do conhecimento, mantendo que a mente humana possui em seu interior uma capacidade de "ver" a essência das coisas.  Sto Agostinho, por exemplo, procura mostrar em De Trinitate, De Magistro, Tractatus in Joannen, que o nosso conhecimento do real só é possível em função de possuirmos uma centelha do fogo divino, a qual nos faz à imagem e semelhança de Deus.  Já Descartes emprega o conceito dessa luz que nos seria natural, vinculada à intuição, e sustenta que a intuição não se confunde com o testemunho flutuante dos sentidos, nem com o juízo enganoso. Pelo contrário, defende que tal intuição viria de uma mente atenta, constituindo-se como aquela concepção indubitável que emerge unicamente da razão iluminada, em última instância, pela presença natural da centelha divina em nós. É neste contexto que Descartes encontra o ponto de partida para a sua epistemologia, a qual avança em relação aos resultados estabelecidos por São Tomás de Aquino.

São Tomás de Aquino discute em sua Suma Teológica (ST) a possibilidade da dúvida na doutrina teológica. Conclui que não se pode duvidar dos dogmas da Igreja, mesmo que existam motivos racionais para tal. Justifica-se fazendo uso do argumento de autoridade dos apóstolos, dos profetas e dos representantes eclesiásticos. A fé funda-se na revelação divina feita aos apóstolos e profetas que escreveram os textos canônicos (ST 1.1.8 - 2). Desse modo, caberia aos representantes eclesiásticos, unicamente, em função de sua autoridade, argumentar sobre a verdade. Devido à fraqueza de nossas mentes, seria necessário sustentar a nossa fé nos dogmas mesmo quando estes contrariassem a razão e o bom-senso, pois a razão filosófica sem o amparo da “graça” não alcançaria, por si só, a verdade.  Para São Tomás, embora a filosofia representasse uma condição para compreender a palavra divina (ST 1.1.5) e fosse ela mesma uma espécie de revelação (ST 2-2.167.1), isto não eliminaria a necessidade de sermos fiéis às escrituras reveladas (ST 1.1.1). São Tomás crê que a fé nas escrituras, por fluir pela graça, jamais destrói a razão, senão que, ao subjugá-la, a fortalece (ST 1.1.8). Em São Tomás a verdade ainda não expressa Satyavacana, pois esta continua subserviente aos dogmas de fé expressos nas revelações da Igreja. 

Empiristas e racionalistas, ao combateram, por dois flancos distintos, a fé medieval, de base tomista, marcam o início da modernidade.  Enquanto Descartes enfrenta o problema da fundamentação do conhecimento no Discurso do Método e nas Meditações, quando coloca em dúvida todo o conhecimento que vem pelos sentidos (inclusive o conhecimento religioso), Bacon no Novum Organum (Novo Instrumento) procura contrapor-se ao Organum aristotélico e a sua ciência. Seja através da certeza interior, cartesiana, expressa como convicção, ou confiança em si mesmo, para pensar com método, seja através da capacidade baconiana de elaborar experimentos e descobrir as verdades, o fato é que, gradualmente, foi-se abandonando a idéia de ciência como um corpo de verdades dogmáticas fundadas na fé, conforme se defendia na Idade Média.

Os métodos de Descartes e Bacon opõem-se às doutrinas dos teólogos e aos dogmas de fé, e revelam, no caso de Descartes, como ouvir em nosso interior a verdade que habita em nós e, no caso de Bacon, como estabelecer os meios indutivos, isentos de ilusão, de conhecer a verdade do mundo exterior a nós mesmos.  Uma vez que o pensamento escolástico estava repleto de erros, Descartes e Bacon buscam superar a tradição dogmática através de um método novo, caracterizado pelo padrão de rigor e certeza.  Ambos concordam que os sentidos não são confiáveis, divergindo apenas quanto ao modo de empregarem a razão. Descartes formula um método dedutivo, enquanto Bacon começa com observações empíricas, a partir das quais procede por indução. Descartes busca ir do geral ao particular; Bacon, do particular ao geral. Bacon e Descartes partem da mesma visão crítica e cética em relação às possibilidades fideístas, e encontram soluções que, embora divergentes, mostram-se também como complementares – unidas, estas duas visões superam a autoridade da Igreja no campo do real e concreto e dão nascimento ao método que se funda no que aqui estamos chamando de Satyavacana. 

Para a ciência moderna e a própria história, como se sabe, a aceitar a priori, como dogma, que a fé esteja na origem de qualquer conhecimento certo e verdadeiro, só pode levar a erros e equívocos.  Surge aí a visão dicotômica ocidental da autoridade religiosa nas questões de fé e da autoridade da ciência nas questões de fato. Uma vez que a ruptura de Descartes e Bacon com o pensamento da tradição representa também uma forma de rejeição à autoridade da Igreja, a consequência será a ruptura da ciência nova com a tradição religiosa, que consegue subsistir, entretanto, recolhendo-se para o interior dos seus domínios, agora redefinidos em termos meramente teológicos e morais.

Na ciência ocidental, o que sobrevive do conceito denotado pelo termo fé corresponde, na verdade, ao sentido do termo em expressões como “fé na ciência”, onde a antiga oposição entre razão e fé já não estão mais presentes. Se o homem é um imitator Dei (imitador de Deus), nos termos pretendidos por Bacon para que o conhecimento fosse entendido como ciência aplicada na técnica; ou se o homem é dotado de luz divina, em função de ser feito a imagem e semelhança de Deus, como queria Descartes, o fato é que a fé na ciência distingue-se da fé, em seu sentido dogmático medieval.

O ponto importante para a nossa discussão é que a fé em seu sentido medieval está associada aos enganos e ilusões (moha), enquanto a “fé em si mesmo”, a fé que nasce da luz do coração quando este ilumina a razão, está associada com aquela forma de ciência que se deixa revelar como Satyavacana.

O caráter básico da razão iluminada pela centelha divina que reside no coração é originário do pensamento indiano. Na Índia, o poema filosófico de nome Bhagavad Gītā descreve como Arjuna experimenta de Satyavacana, na exata medida em que este se decide, de coração, pela verdade. O termo sânscrito que designa esta capacidade de centrar-se no coração para, a partir daí, contemplar a verdade e o sagrado é śraddhā (fé em si mesmo, certeza interior, convicção, fervor, coragem). O desenvolvimento de śraddhā implica na coragem para renunciar à fé cega (que não se submete ao teste da razão, do bom senso e da experiência).

Satyavacana, portanto, funda-se em śraddhā, ou seja, na coragem para abandonar os velhos dogmas de fé que, se descobre, não se coadunem com a verdade. Quando entendermos como fé, não a fides medieval, mas a certeza que se funda na experiência (Bacon) e que resiste à dúvida metódica (Descartes), encontramos, em verdade o que se designa pelo termo sânscrito consagrado na Bhagavad Gītā – śraddhā. Diferentemente do entendimento implícito na expressão medieval, fides quaerens intellectum, de que a fé é o pressuposto do conhecimento, afirmação que se provou falsa no domínio das ciências naturais; a expressão “śraddhā” quaerens intellectum, ao atualizar o sentido medieval da antiga fides, sugere uma proposição verdadeira em qualquer domínio. Daí expressar o referencial para designar aquilo que aqui definimos como Satyavacana, ou seja, aquele compromisso com a verdade que, nem a ciência materialista, nem a moral religiosa, haviam sido ainda capazes de equacionar adequadamente.

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