Um dia no Ātma

Domingo, 21 Outubro 2012 18:38 | Escrito por 
 Vista das instalações no centro do Lago Menor da Fazenda Mãe Natureza da Comunidade da Vida Divina, um núcleo  do Śuddha Sabha Ātma. Vista das instalações no centro do Lago Menor da Fazenda Mãe Natureza da Comunidade da Vida Divina, um núcleo do Śuddha Sabha Ātma.

 

Um Convite:
Caminhante, amigo, viajemos juntos.
Se dividirmos a vigília noturna,
conservaremos as nossas forças.
Lembra-te, nós deveremos alcançar
a aldeia do sagrado no coração.

A caminhada para a realização ātmica (do coração) é árdua. Por isto o Śuddha Sabha Ātma, sinônimo de comunhão com o sagrado no coração, busca materializar na Fazenda Mãe Natureza aquilo que só existia nos plano das ideias e das concepções mais elevadas. Representa um oásis de luz e um porto seguro para os viajantes do caminho, do mesmo modo que o Projeto Reviver, da Fazenda Mãe Natureza, o é para todos aqueles cansados das viagens pelo mundo das paixões, das ilusões e das incertezas do individualismo egoísta. Materializa-se, este Sabha, portanto, como aquele chamado interior que há muito ecoa em nossas almas, oriundo da essência mais pura (śuddha) do sagrado (dharma) em nosso próprio coração (Ātman).

Este centro de luz convida a todas as pessoas de boa vontade para que impregnem seus atos com os ideais de reconstrução do mundo sob os princípios universais da Eco-espiritualidade (termo especialmente cunhado para interpretar o significado e o sentido de caráter multicultural e universal como se emprega o conceito de Ātman – o Espírito Santíssimo de Vida no Sagrado Coração – na Bhagavad Gītā, a Escritura Sagrada que trata sobre o Sagrado de todas as demais Escrituras).

O conhecimento de que somos Filhos de Deus, ou de que o sagrado está dentro de nós, tem muito valor. Entretanto, contatar com o sagrado e conhecer Deus dentro do próprio coração, tem muito mais valor. No Śuddha Sabha Ātma algumas pessoas já experimentam de fagulhas de segundos desse contato com a essência. E isto já é muito diferente do conhecimento meramente teórico em que a maioria no mundo se vê engessada há séculos. Apesar destas experiências ainda serem raríssimas e por frações de segundos, o contato real com o mais profundo de nossa essência faz uma diferença definitiva em nossas vidas. Quando o conhecimento deixa de ser teórico, não tem mais volta, não há mais como retroceder e se inicia então o lento e gradual processo de Brahmasāmīpya, ou seja, de convergência para a luz e para o coração, sem nunca mais retroceder.

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Um primeiro objetivo do Śuddha Sabha Ātma é chamar a atenção para esse contato, motivando as pessoas para empreenderem o esforço de purificação da mente, condição sine qua non para que consigamos renunciar (saṃnyāsa) às coisas que, já sabemos, obstaculizam o contato com o sagrado no coração. Sabedores do que pode nos aproximar ou nos afastar do coração, resta criar a motivação para praticar as coisas que podem facilitar esta aproximação. Este representa um segundo objetivo do Śuddha Sabha Ātma. Daí a importância da renúncia (saṃnyāsa). Os vícios e a adicção ao prazer causam, necessariamente, um desequilíbrio interior que, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, deixam sequelas difíceis de serem sanadas.

Então, se sabemos, aprioristicamente, que vamos passar por este desconforto interior, por que não renunciamos? A renúncia ao prazer tolo de ser desonesto, por exemplo, leva à honestidade e a honestidade nos aproxima um pouco mais da nossa essência. Valores nobres despontam, quando se tem coragem de renunciar. E assim nos esbarramos com o sagrado, a divina presença, o Espírito, que é Deus em nós. Basta um contato de alguns segundos com o coração para se gerar uma serie de novos valores dentro de nós. Passamos a nos considerar como fiéis depositários desta relíquia, deste tesouro, que é a certeza de que carregamos a essência (śuddha) mesma do sagrado (dharma). É nesse momento que a gente começa, verdadeiramente, a se compreender e amar.

Quanto maior, na prática, a certeza da divina presença, maior é o valor que a nossa vida passa a ter. O conhecimento e a experiência subjetiva dentro do coração nos nutrem de razões objetivas para que nos amemos mais. Por causa da comprovação prática desse conhecimento, de que Deus está presente dentro de nós, aumenta a nossa capacidade de amar, levando-nos a renunciar a tudo o que fere e destrói.

Na Fazenda Mãe Natureza, dentro do Projeto Reviver, já se havia descoberto um método universal para levar as pessoas a materializarem esta disciplina na prática. Em relação aos vícios que nos impedem de viver uma vida de verdadeira paz e harmonia com todos os seres, de algum modo, todos nos assemelhamos: enquanto uns tornam-se dependentes do uso de drogas e outras substâncias destrutivas; outros se envenenam com a droga da impaciência e das emoções extremadas. No entanto, tudo é droga do mesmo jeito. Drogados somos todos nós. E são a estas drogas todas que necessitamos renunciar. Não se consegue se aproximar ao sagrado no coração sem esta renúncia ao “ter”, que é o principal motivador da grande ilusão (moha). Podemos ter todas as coisas da vida, mas não podemos nos fiar nisto. Pode-se ter tudo, mas apenas se tivermos como se não tivéssemos. Aquele que quando tem se sente o dono do mundo, vive na ilusão.

Por meio de vários experimentos, descobriu-se na Fazenda Mãe Natureza que é possível levar as pessoas a provarem de outra coisa em si mesmas, além dos cinco sentidos, a qual permite caminhar com confiança e se dirigir no mundo, mesmo que de olhos vendados. Nada pode nos dar tanta certeza como a experiência da presença do sagrado no coração. Esta é, de fato, a primeira certeza sensível, verdade universal e eterna, muito superior ao cogito cartesiano. Quando experimentamos, subjetiva e objetivamente esta verdade, ainda que por um minúsculo lapso de tempo, adquirimos o poder de perseguir esse estado até entrarmos em comunhão plena com esta relíquia em nosso interior. Alguns servidores, informalmente, chamam a esta prática estabelecida no Projeto Reviver de Teoterapia, ou seja a terapia da aproximação a Deus no coração. Parece brincadeira, mas a base do Projeto Reviver é mesmo esta Teoterapia, e ela já deu certo.

A visão que temos de nós mesmos a partir daí torna-se, então, outra. Esta certeza cria em nós o sentimento de valor, de amor. Aí inicia-se o processo de toda e qualquer recuperação. A certeza de quem já experimentou do sagrado no coração nos dá autoestima e nos conduz pelo caminho de convergência para esta essência divina em nós. Isto é o que foi alcançado dentro do Projeto Reviver, na Fazenda Mãe Natureza. Foi algo que precisou anos de experiências para se alcançar, mas encontrou-se a chave para levar os internos a aprenderem a se aproximar do coração. É raro o caso de alguém que entra na fazenda e que não se aproxima um pouquinho desse sagrado no coração. Pode entrar de um jeito, mas, ao sair, igual não fica.

Não é incomum ver alguns dos internos utilizando termos e conceitos com os quais quase não haviam tido anteriormente nenhum contato. Por exemplo, outro dia um interno disse ao colega: “Eu tenho certeza que vou transcender esse estado em que estou. Eu estou muito mal, mas vou transcender”. A utilização do termo “transcendência” nesse contexto é algo de muito poder e tem, verdadeiramente, um valor imenso. As pessoas ingressam no Projeto e, de repente, tocados pelo coração, passam a manifestar esses comportamentos. Esta grande descoberta não acontece aos internos porque a eles é ensinado como “meditar”. De forma alguma. Pouquíssimos seriam os internos com o nível de maturidade e paciência necessários para a prática efetiva da meditação. Isto acontecerá em uma etapa futura. A experiência bem sucedida da fazenda é, efetivamente, possibilitar um campo de aprendizado de coisas tão vitais para eles quanto o é a meditação para os membros do Śuddha Sabha Ātma. O campo de conceitos emanados da filosofia śuddha da fazenda estimula no interno, por exemplo, o desejo de ser verdadeiro e a cultivar a honestidade. A experiência de convivência, centrada na prática da veracidade (satyavacana), faz com que a verdade surja como valor. Aos poucos, todos percebem que é necessário ser veraz, praticar a veracidade, para poder alcançar a verdade. A primeira leva à segunda. Logo, ser verdadeiro é o melhor modo que se tem para se chegar à verdade. E isto, num primeiro momento, basta. Jesus tem razão, “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. De forma incipiente, é isto que foi descoberto, na prática, na Fazenda Mãe Natureza, conforme se comprova pelos resultados expressivos do Projeto Reviver.

Na Fazenda, todos os voluntários trabalham incansavelmente por este ideal de possibilitar aos internos o acesso aos valores do coração. E por causa desta persistência, aos poucos, descem do plano das ideias (plano espiritual) as intuições e a motivação que se irradia dos servidores, contagiando a todos do Projeto Reviver, aos familiares, amigos, alcançando os locais mais distintos e as mais longínquas comunidades.

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A Comunidade da Vida Divina do Śuddha Sabha Ātma representa a morada para onde convergem as classes mais distintas de servidores e outros seres de luz que nos auxiliam com a sua participação e presença. Deste modo e com este propósito, os dias de sexta-feira são dedicados à consagração deste campo de interação com a essência (śuddha) do sagrado (dharma). Toda sexta-feira acontece uma cerimônia de consagração, destinada a nos auxiliar a afrouxar os nós que ainda não conseguimos desatar. Uma ritualística simples, mas de grandes resultados objetivos. Pela repetição se chega à perfeição. Do mesmo modo, a consagração semanal pretende imantar o Sabha dos valores do Espírito, para que o seu campo de influência sutil atravesse fronteiras e alcance a todos aqueles em sintonia com esse trabalho. Esta certeza vem do trabalho ritmicamente repetido, infalivelmente, até a perfeição. Daí que nada seja mais importante na Fazenda Mãe Natureza, neste momento, que as práticas realizadas no interior do Śuddha Sabha Ātma nas madrugadas de sexta-feira. Os voluntários do Śuddha Sabha Ātma, de livre vontade, aceitaram o compromisso de jamais deixarem de atender a estas práticas em função de outros afazeres, pois firmaram este propósito por verem nele a expressão daquela cerimônia onde se aprende, gradualmente, a estabelecer como morada da mente, unicamente, o sagrado coração.

Não há nada mais importante na Fazenda, portanto, que o cumprimento deste propósito e determinação (saṃkalpa) de consagrar as sexta-feiras para este casamento oficiado todas as semanas no interior do Sabha. Estas e outras resoluções tomadas pelos voluntários são para sempre (ananta-he!), daí que nada as derrube. Em matéria dos valores do coração, tudo é assim. E é isto que faz irradiar dos distintos servidores aquele poder da divina presença que se irradia e a todos contamina.

A consagração semanal ajuda os participantes, mas mesmo a distância, quem estiver realizando estas pequenas renúncias ao que não é necessário, estará se beneficiando, pois estará naquela sintonia que nos permite nos beneficiar de tudo que conduz ao coração. Ela se inicia por volta das 3h. O ato físico é conduzido pelo instrutor do Śuddha Sabha Ātma, mas a consagração ocorre de forma sutil, segundo fórmulas ancestrais descritas na vasta literatura sânscrita.

O mesmo, rogamos, estará se dando com aqueles que lerem este texto com os olhos do coração. Estes adquirirão o poder de renunciar ao que não é necessário. E ao iniciarem este processo de renúncia, se esbarrarão com os valores do coração, acessando a sua luz, que a tudo ilumina.

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