Do Mestre ao Discípulo - Escutatória

Quarta, 04 Setembro 2013 17:43 | Escrito por 

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.  Escutar é complicado e  sutil.

Diz Alberto Caeiro que... “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.” Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a dificuldade:  A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...

Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.

Vejam a semelhança...  Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio... Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.  Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.  Terminada a fala, novo silêncio.  Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos... Pensamentos que ele julgava essenciais.  São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.  Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza... Na verdade, não ouvi o que você falou.  Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.  Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.  Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.  O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.  E, assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.  Fernando Pessoa conhecia a experiência...  E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.  A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.  No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.  Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...  Que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.  Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alve

NAMASTÊ

Ler 5591 vezes Última modificação em Terça, 10 Setembro 2013 13:16